Capítulo anterior: O trem da salvação
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Eu era o chefe da equipe. E agora? Resolvi sair da estrada para não ficar dando mole para o inimigo. Dei dois passos e…
Não vi que do lado da estrada tinha um barranco de mais de três metros e fui o primeiro a chegar lá embaixo; não sei como não me machuquei. Estávamos em doze e os outros desceram com o cuidado devido. Organizei a equipe e partimos na direção indicada pelo Tenente Santiago.
A princípio, quando ocorre uma fuga, é montada uma RAFE, Rede de Apoio à Fuga e Evasão. São moradores simpáticos à nossa causa que fornecem comida, agasalho, dinheiro, documentos falsos e tudo o mais que possa nos ajudar a voltar para casa. Só que, dessa vez, parece que íamos ter que nos virar sozinhos.
Continuamos andando até que resolvemos parar em uma casa. Estávamos exaustos, com sono, com fome, andando sem saber para onde, não tinha como dar certo.
Havia um galpãozinho vazio de uns dois metros por um e meio de largura, devia ser para guardar ferramentas. Amontoamos-nos lá, enquanto dois de nós foram falar com o dono da casa.
O dono - na verdade, a dona - da casa não se incomodou de ficarmos lá e resolvemos arranjar uma posição para dormir. Só que simplesmente não cabiam doze pessoas lá dentro em outra posição que não fosse de pé. Fomos nos amontoando em camadas até que todos ficaram em uma posição, que, se não era boa, pelo menos dava pra descansar por alguns minutos - até a próxima cãibra. Frio, frio, frio.
Depois de algumas poucas horas, o sol nasceu e os mesmos dois foram falar com a mulher. E voltaram com boas notícias. A dona da casa iria fazer comida para nós. Não comíamos nada há quase dois dias. Ela não acreditou que estávamos em doze lá dentro, achou que os dois estavam querendo levar comida a mais. Além disso, talvez conseguíssemos uma carona escondida num caminhão de leite que ia para Resende.
Demorou um pouco, mas valeu a pena. A mulher fez para nós mandioca cozida, torresmos, farofa com carne e ovo e um bule de café. Ainda bem que existe gente assim no mundo!
Depois do banquete, saímos do barracãozinho. Nessa hora, a senhora pôde ver que éramos doze mesmo. Agradecemos e partimos, tomando todo o cuidado para não sermos vistos. Qualquer carro que se aproximava, tínhamos que sair correndo da estrada. O problema é que dos dois lados da estrada havia cercas de arame, o que nos custou alguns cortes e o uniforme de prisioneiro todo rasgado.
Falamos com alguns habitantes locais e eles disseram que estávamos em Formoso, no estado de São Paulo, a uns cinqüenta quilômetros de Resende.
Andamos por uns três quilômetros e chegamos ao ponto onde o leiteiro parava. Era em uma bifurcação da estrada e o pessoal que estava por lá disse que havia caminhões militares passando a toda hora.
Escondemos-nos no meio de um bambual e, quando o leiteiro chegou, o nosso cara-de-pau oficial foi falar com ele. Só que não conseguimos a carona. O motorista disse que se fossem uns dois ou três, tudo bem. Só que doze não cabiam escondidos no caminhão. Eu acho que cabia…
O leiteiro se foi e nós também.
Logo à frente, um menino de uns dez anos disse que podia nos levar por umas trilhas que passavam longe da estrada. Assim que saímos da pista, começaram a passar os caminhões Mercedes 1418 dos bricarianos, um atrás do outro.
Fomos progredindo por lanços, de árvore em árvore, por dentro d’água, debaixo de pontes, até entrarmos numa mata. De lá, o menino foi embora e continuamos seguindo na direção geral do norte. No meio dessa mata, passamos pelo marco de concreto da divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro..
Subimos um morro. Do outro lado estava cheio de soldados. Começamos a voltar e então ele apareceu…
Um helicóptero HA-1 Fennec surgiu sobre nós. Cada um se escondeu como pôde. Um saltou no meio de uma moita – deviam ser urtigas - e saiu todo empipocado.
O helicóptero passou e corremos para a única direção que não havíamos visto ninguém ainda.
Fomos seguindo por uma trilha, subimos outra elevação e chegamos a um campo aberto que já havia sido uma plantação de milho. Era algo extremamente arriscado ultrapassar mais de duzentos metros sem nenhum abrigo, bem no alto da colina.
Atravessamos correndo e, quando chegávamos ao outro lado, o helicóptero apareceu novamente. Todos se esconderam deitando junto à cerca, torcendo para que o piloto nos confundisse com o capim que começava a crescer por ali. Ele sobrevoou o local umas duas vezes, ameaçou pousar, mas acabou seguindo adiante. Ufa!
Daí pra frente, passamos um longo tempo subindo e descendo morros intermináveis e nos escondendo do helicóptero. De vez em quando, parávamos para descansar em algum bambual, que oferecia sombra e proteção total contra a observação aérea, ou em um riacho, para matarmos a sede (a fome não tinha como) e tirarmos a terra dos coturnos, que continuavam sem meias e sem cadarço.
Mas nem tudo era um infortúnio completo. Tínhamos a maior vantagem que qualquer combatente pode desejar: o apoio da população local.
Chegou uma hora que não teve jeito, tivemos que seguir pela estrada. Passamos por uma casa e dois molequinhos de uns seis ou sete anos disseram que logo mais à frente havia um bloqueio do Exército. E nos ensinaram uma trilha que passava por cima de uma elevação, contornando o check-point bricariano.
Demos na estrada de novo e encontramos um tal de Chico Preto. Este nos falou de uma estrada secundária que passava por ali, desviando um bom pedaço da estrada principal e, provavelmente, dos bricarianos.
Resolvemos seguir por essa estrada e paramos numa casa para pedir água. Morava lá uma senhora já bem velha, que nos deu, além da água, uma jaca e um bule de café aguado, frio e sem açúcar. Uma delícia.
Lá na frente, cruzamos novamente com o Chico Preto, que agora estava a cavalo. Disse que a estrada principal estava cheia de soldados.
Saímos da estradinha e prosseguimos por uma trilha que foi ficando cada vez mais estreita. A trilha acabou se transformando num estreito caminho de vaca que deu num morro muito alto.
Descemos pela encosta e perguntamos numa casa para que lado ficava Resende. Mostraram-nos a direção e disseram que estava a vinte e dois quilômetros. Já tínhamos andado mais de trinta quilômetros desde o ponto onde fomos libertados. Também nos mostraram onde ficava uma venda que tínhamos ouvido falar.
Seguimos na direção de Resende e da venda.
Mais ou menos nessa hora, o helicóptero passou por nós pela última vez. Estávamos num lugar com algumas árvores e não foi difícil se esconder.
Entramos numa casa em construção enquanto os caras-de-pau foram até a venda. Outro foi fazer um reconhecimento numa casa próxima. Quando ele voltou, fomos ao encontro daqueles dois.
Na venda, convencemos o dono a vender fiado para nós - se fosse eu o dono, não venderia. Compramos pão, bolachas, queijo e uma Fanta Laranja de dois litros.
Deram-nos outra dica: havia um atalho que cortava alguns quilômetros de estrada. Já estava escurecendo e ficamos naquele vai-não-vai. Quando decidimos ir, já tinha escurecendo de vez.
Ficamos por ali mesmo e decidimos dormir na casa em construção. Um de nós voltou até a venda e conseguiu uma caixa de fósforos.
Acendemos a fogueira dentro da casa mesmo. Estava muito difícil se aquecer, o frio não era de brincadeira. Muito perto da fogueira queimava; um pouco afastado, já estava frio. A casa não tinha portas ou janelas ainda e ventava muito.
Comemos e ficamos todos amontoados ao redor da fogueira, sem conseguir dormir direito. Um pedaço da sola do meu coturno pegou fogo e derreteu e eu nem senti por causa do frio…
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Continua em: O caminho para o inferno