e-Lidiofin

27 April 2005

Operação Holocausto - A verdade

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Capítulo anterior: O caminho para o inferno
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O que realmente ocorreu naqueles quatro dias?

Essa operação fazia parte do Estágio de Operações Especiais, Fuga e Evasão, ministrado pela Seção de Instrução Especial, no 3º ano da AMAN.

A Bricária é uma país fictício que estava em conflito com o Brasil. Todo o exercício foi ambientado em torno dessa situação. Na noite anterior a essa missão específica, já tínhamos cumprido outra: a destruição de uma ponte, que não tenho a mínima idéia de onde fica.

Eu tomei a liberdade de contar como se fosse uma operação real, mas, obviamente, ocorreu numa situação de exercício. Ninguém foi espancado ou morreu e a Usina do Funil continua funcionando até hoje, próximo a Itatiaia.

Com exceção do silenciamento das sentinelas (que eram bonecos), não foi utlizada munição real em nenhuma ocasião.

Fora isso, todo o resto realmente ocorreu: a infiltração subaquática, o aqueduto, o campo de prisioneiros, a fuga e a evasão de quase sessenta quilômetros até Resende.

O campo de triagem foi montado na Fazenda Pau d’AlhoGoogle Earth, uma fazenda histórica no município de São José do Barreiro/SP (fiquei sabendo disso bem depois do exercício). Achei uma foto dela na internet:

Numa situação real, jamais poderíamos manter o contato com a população que mantivemos. Estávamos em teritório inimigo durante todo o tempo.

Após a nossa segunda captura, o instrutor parou a viatura e disse o que havia acontecido (o furo no pneu e a nossa fuga) e nos libertou. Os dois mortos estavam, na realidade, machucados (um com o tornozelo torcido e outro com uma inflamação no joelho e febre alta). Ali terminou o exercício para eles, que retornaram no caminhão, junto com o instrutor.

O terceiro, com o pé machucado continuou conosco e ocorreu exatamente o que foi descrito. Nosso grupo chegou ao aeroporto faltando dois minutos para o término do prazo - foi o último grupo a chegar dentro do horário - e, de lá, voltamos numa viatura para a Academia.

Só tenho duas fotos aqui, bem ruinzinhas, de quando chegamos à AMAN:

Na primeira, estou de óculos. Não uso óculos; estou com eles apenas para dar um upgrade no meu visual de Papillon para a foto. Ao meu lado, está o Amadão, que fez alguns comentários durante o desenrolar da nossa história. Ele é o dono dos óculos e hoje não está mais no Exército.

Na segunda, eu estou no primeiro plano, comendo feito um desesperado.

Omiti todos os outros nomes porque não consegui falar com os envolvidos antes de publicar a história.

See you.

26 April 2005

Operação Holocausto 6 - O caminho para o inferno

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Capítulo anterior: Os doze condenados
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No dia seguinte, após a interminável noite, parecia que tínhamos levado uma surra. Saímos bem cedo, com o corpo todo doído e seguimos pelo tal atalho. Meia hora depois, chegamos à estrada. Deviam faltar uns dezessete ou dezoito quilômetros para Resende.

Era sexta-feira. Tínhamos menos de cinco horas para chegar ao aeroporto e ser exfiltrados. Seguimos pela estrada, quase correndo. Meia hora depois chegamos a um cruzamento.

Do nada, vários soldados bricarianos saíram do mato. Não tínhamos como fugir, cercados e desarmados como estávamos. Capturados novamente, faltando tão pouco para sermos resgatados…

Os soldados nos mantiveram sentados próximos da estrada e nos deram um pouco de comida. Depois de algum tempo, passou uma viatura, recolhendo os prisioneiros. Já havia mais um lá dentro.

Antes de embarcar, nos colocaram num riacho próximo. A água estava gelada de um jeito que eu nunca havia visto. Comecei até a sentir dificuldades pra respirar de tão frio.

Embarcamos na viatura. O piso do caminhão se encheu de areia molhada. Ficamos na viatura de rodilhos e com a testa no chão. Os buracos na estrada não colaboravam em nada. Nossos joelhos, já machucados, começaram a doer ainda mais.

O caminhão rodou por um bom tempo. A cada buraco, a cada curva, acabávamos rolando por cima dos companheiros. Os soldados bricarianos nos punham de volta no lugar.

De repente, um estouro. A viatura começou a derrapar de um lado para o outro e freou bruscamente.

Todos, inclusive os guardas, rolaram para frente. Como se todos tivessem tido um mesmo insight, percebendo que aquela seria a nossa última chance, partimos para cima dos soldados.

Socos, pontapés, tiros, golpes de baioneta. Uma luta medieval, sem o mínimo pudor; nós querendo escapar e os bricarianos lutando apenas para sobreviver. O motorista ainda sacou de sua pistola, mas foi morto por alguém que já havia pegado um dos fuzis. O resultado: os três bricarianos e dois companheiros nossos mortos e um ferido grave no pé.

Nessa hora que pudemos ver o que havia nos salvado. O pneu dianteiro direito da viatura havia estourado. Escondemos os corpos dos nossos companheiros no mato, a uns cem metros da estrada, torcendo para que alguém pudesse buscá-los um dia. Era o máximo que podíamos fazer.

Saímos de lá o mais rápido possível, correndo na direção do norte e subimos uma enorme elevação que estava à nossa frente. Do alto, vimos Resende ao longe. Deviam ser por volta de dez horas. Tínhamos duas horas para chegar ao aeroporto. Sentamos para tirar a terra dos coturnos, limpar um pouco os machucados e seguimos em frente.

Descer o morro já foi mais difícil. Era íngreme e escorregadio. Terminava num barranco de uns três metros de altura. Àquela altura do campeonato, ninguém estava em condições de saltar dali. Descemos nos agarrando no capim e nas raízes até cairmos de vez.

Chegamos a uma estradinha que dava num pequeno sítio e dali ia para a estrada principal. Encontramos uma trilha que contornava o sítio e seguimos por ela, andando o mais rápido que podíamos. Essa trilha terminou num enorme charco.

Sem nem pensar, entrei naquela lama fedorenta e afundei até o peito. Tentei seguir em frente, mas só aí percebi que era mais fundo do que eu esperava. E não havia nada sólido onde eu pudesse agarrar ou me apoiar. Essa história de areia movediça existe, acreditem. Continuei afundando até que pedi para me ajudarem e alguém me puxou de volta.

Tivemos que dar uma volta enorme até encontrar uma passagem. Dali, seguimos correndo, sempre a cavaleiro da estrada, atravessando cercas, pequenos charcos, riachos.

O tempo se esvaindo e nada de chegarmos a Resende. Se correr, o bico pega; se ficar, o bicho come. Decidimos seguir pela estrada, mesmo correndo o risco de sermos capturados novamente.

Tiramos os coturnos e começamos a correr descalços, cada um dos onze – incluindo o prisioneiro que já estava no caminhão bricariano - tentando superar seus próprios limites e não ficar para trás, atrasando os companheiros.

Depois de uns quarenta minutos de corrida, começaram a aparecer as primeiras casas da periferia de Resende. Quatro de nós, que estavam melhores, foram na frente, avisar que estávamos chegando. O restante ficou para trás, um ajudando o outro.

Aquele nosso amigo que estava com o pé ferido não agüentou mais. Fomos, dois a dois, apoiando-o, praticamente carregando-o. Com pouco mais de um minuto, nos revezávamos, pois não agüentávamos muito mais também.

Vimos a grade que cerca o aeroclube de Resende. Foi quando ouvimos aquele som. Os motores da aeronave Buffalo sendo acionados.

Saltamos a cerca e corremos para a aeronave. Já havia vinte outros fugitivos dentro da aeronave. Eram 11h58. A rampa do avião se fechou e e começamos a taxiar.

Nunca mais estive na Bricária.
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Continua em: A verdade

25 April 2005

Operação Holocausto 5 - Os doze condenados

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Capítulo anterior: O trem da salvação
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Eu era o chefe da equipe. E agora? Resolvi sair da estrada para não ficar dando mole para o inimigo. Dei dois passos e…

Não vi que do lado da estrada tinha um barranco de mais de três metros e fui o primeiro a chegar lá embaixo; não sei como não me machuquei. Estávamos em doze e os outros desceram com o cuidado devido. Organizei a equipe e partimos na direção indicada pelo Tenente Santiago.

A princípio, quando ocorre uma fuga, é montada uma RAFE, Rede de Apoio à Fuga e Evasão. São moradores simpáticos à nossa causa que fornecem comida, agasalho, dinheiro, documentos falsos e tudo o mais que possa nos ajudar a vol­tar para casa. Só que, dessa vez, parece que íamos ter que nos virar sozinhos.

Continuamos andando até que resolvemos parar em uma casa. Estávamos exaustos, com sono, com fome, andando sem saber para onde, não tinha como dar certo.

Havia um galpãozinho vazio de uns dois metros por um e meio de largura, devia ser para guardar ferramentas. Amontoamos-nos lá, enquanto dois de nós foram falar com o dono da casa.

O dono - na verdade, a dona - da casa não se incomodou de ficarmos lá e resolve­mos arranjar uma posição para dormir. Só que simplesmente não cabiam doze pessoas lá dentro em outra posição que não fosse de pé. Fomos nos amontoando em camadas até que todos ficaram em uma posição, que, se não era boa, pelo menos dava pra descansar por alguns minutos - até a próxima cãibra. Frio, frio, frio.

Depois de algumas poucas horas, o sol nasceu e os mesmos dois foram falar com a mulher. E voltaram com boas notícias. A dona da casa iria fazer comida para nós. Não comíamos nada há quase dois dias. Ela não acreditou que estávamos em doze lá dentro, achou que os dois estavam querendo levar comida a mais. Além disso, talvez conseguíssemos uma carona escondida num caminhão de leite que ia para Resende.

Demorou um pouco, mas valeu a pena. A mulher fez para nós mandioca cozida, torresmos, farofa com carne e ovo e um bule de café. Ainda bem que existe gente assim no mundo!

Depois do banquete, saímos do barracãozinho. Nessa hora, a senhora pôde ver que éramos doze mesmo. Agradecemos e partimos, tomando todo o cuidado para não sermos vistos. Qualquer carro que se aproximava, tínhamos que sair correndo da estrada. O problema é que dos dois lados da estrada havia cercas de arame, o que nos custou alguns cortes e o uniforme de prisioneiro todo rasgado.

Falamos com alguns habitantes locais e eles disseram que estávamos em Formoso, no estado de São Paulo, a uns cinqüenta quilômetros de Resende.

Andamos por uns três quilômetros e chegamos ao ponto onde o leiteiro parava. Era em uma bifurcação da estrada e o pessoal que estava por lá disse que havia cami­nhões militares passando a toda hora.

Escondemos-nos no meio de um bambual e, quando o leiteiro chegou, o nosso cara-de-pau oficial foi falar com ele. Só que não conseguimos a carona. O motorista disse que se fossem uns dois ou três, tudo bem. Só que doze não cabiam escondidos no caminhão. Eu acho que cabia…

O leiteiro se foi e nós também.

Logo à frente, um menino de uns dez anos disse que podia nos levar por umas trilhas que passa­vam longe da estrada. Assim que saímos da pista, começaram a passar os caminhões Mercedes 1418 dos bricarianos, um atrás do outro.

Fomos progredindo por lanços, de árvore em árvore, por dentro d’água, debaixo de pontes, até entrarmos numa mata. De lá, o menino foi embora e continuamos seguindo na direção geral do norte. No meio dessa mata, passamos pelo marco de concreto da divi­sa de São Paulo com o Rio de Janeiro..

Subimos um morro. Do outro lado estava cheio de soldados. Começamos a voltar e então ele apareceu…

Um helicóptero HA-1 Fennec surgiu sobre nós. Cada um se escondeu como pôde. Um saltou no meio de uma moita – deviam ser urtigas - e saiu todo empipocado.

O helicóptero passou e corremos para a única direção que não havíamos visto nin­guém ainda.

Fomos seguindo por uma trilha, subimos outra elevação e chegamos a um campo aberto que já havia sido uma plantação de milho. Era algo extremamente arriscado ultra­passar mais de duzentos metros sem nenhum abrigo, bem no alto da colina.

Atravessamos correndo e, quando chegávamos ao outro lado, o helicóptero apare­ceu novamente. Todos se esconderam deitando junto à cerca, torcendo para que o piloto nos confundisse com o capim que começava a crescer por ali. Ele sobrevoou o local umas duas vezes, ameaçou pousar, mas acabou seguindo adiante. Ufa!

Daí pra frente, passamos um longo tempo subindo e descendo morros intermináveis e nos es­condendo do helicóptero. De vez em quando, parávamos para descansar em algum bambual, que oferecia sombra e proteção total contra a observação aérea, ou em um riacho, para matarmos a sede (a fome não tinha como) e tirarmos a terra dos coturnos, que continuavam sem meias e sem cadarço.

Mas nem tudo era um infortúnio completo. Tínhamos a maior vantagem que qualquer combatente pode desejar: o apoio da população local.

Chegou uma hora que não teve jeito, tivemos que seguir pela estrada. Passamos por uma casa e dois molequinhos de uns seis ou sete anos disseram que logo mais à fren­te havia um bloqueio do Exército. E nos ensinaram uma trilha que passava por cima de uma elevação, contornando o check-point bricariano.

Demos na estrada de novo e encontramos um tal de Chico Preto. Este nos falou de uma estrada secundária que passava por ali, desviando um bom pedaço da estrada princi­pal e, provavelmente, dos bricarianos.

Resolvemos seguir por essa estrada e paramos numa casa para pedir água. Morava lá uma senhora já bem velha, que nos deu, além da água, uma jaca e um bule de café aguado, frio e sem açúcar. Uma delícia.

Lá na frente, cruzamos novamente com o Chico Preto, que agora estava a cavalo. Disse que a estrada principal estava cheia de soldados.

Saímos da estradinha e prosseguimos por uma trilha que foi ficando cada vez mais estreita. A trilha acabou se transformando num estreito caminho de vaca que deu num morro muito alto.

Descemos pela encosta e perguntamos numa casa para que lado ficava Resende. Mostraram-nos a direção e disseram que estava a vinte e dois quilômetros. Já tínhamos andado mais de trinta quilômetros desde o ponto onde fomos libertados. Tam­bém nos mostraram onde ficava uma venda que tínhamos ouvido falar.

Seguimos na direção de Resende e da venda.

Mais ou menos nessa hora, o helicóptero passou por nós pela última vez. Estáva­mos num lugar com algumas árvores e não foi difícil se esconder.

Entramos numa casa em construção enquanto os caras-de-pau foram até a venda. Outro foi fazer um reconhecimento numa casa próxima. Quando ele voltou, fomos ao encontro daqueles dois.

Na venda, convencemos o dono a vender fiado para nós - se fosse eu o dono, não venderia. Compramos pão, bolachas, queijo e uma Fanta Laranja de dois litros.

Deram-nos outra dica: havia um atalho que cortava alguns quilômetros de estrada. Já estava escurecendo e ficamos naquele vai-não-vai. Quando decidimos ir, já tinha escu­recendo de vez.

Ficamos por ali mesmo e decidimos dormir na casa em construção. Um de nós vol­tou até a venda e conseguiu uma caixa de fósforos.

Acendemos a fogueira dentro da casa mesmo. Estava muito difícil se aquecer, o frio não era de brincadeira. Muito perto da fogueira queimava; um pouco afastado, já estava frio. A casa não tinha portas ou janelas ainda e ventava muito.

Comemos e ficamos todos amontoados ao redor da fogueira, sem conseguir dormir direito. Um pedaço da sola do meu coturno pegou fogo e derreteu e eu nem senti por causa do frio…
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Continua em: O caminho para o inferno

24 April 2005

Operação Holocausto 4 - O trem da salvação

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Capítulo anterior: “Prisioneros, colaborem!”
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Fomos acordados e tivemos um tempo para decorar a canção da Bricária. Nessa hora, os soldados chegaram trazendo mais um preso. Disseram que era um piloto que havia sido abatido e perguntaram se algum de nós o conhecia. Respondemos que não.

Logo depois, os jefes del equipo foram separados e presos no porão novamente. O 126 não estava mais lá, mas o piloto que havia acabado de chegar estava. Começamos a fazer diversas perguntas e ele dizia que não sabia de nada, até que eu perguntei:

- Você sabe por onde passa o trem da salvação?

Essa era a senha das Forças Especiais que estavam infiltradas na Bricária, que ha­via nos sido dita lá na Base de Operações. Para nosso alívio, ele respondeu com a contra-senha:

- Não. Mas conheço o caminho para o inferno.

O contato estava feito. O Brasil não nos abandonara.

Procuramos por microfones escondidos no porão. Não encontramos nenhum. Ele explicou que tinha se deixado capturar de propósito para se infiltrar ali e nos explicar um plano de fuga. Disse que, quando fôssemos ser transferidos para outro campo de prisioneiros, um Destacamento de Ações de Comandos iria emboscar o comboio e nos libertar. Também disse que, durante a emboscada devíamos permanecer deitados no piso do caminhão e, em hipóte­se alguma, saltar do mesmo, para não sermos confundidos com os inimigos.

Fomos de novo levados para os pelotões. O meu estava voltando para o buraco. O frio estava piorando. Nos poucos instantes que tínhamos sem ninguém vigiando, eu ia passando as instruções do “piloto abatido” para a minha equipe.

Em seguida realizamos vários trabalhos no campo, como desmontar barracas, carre­gar madeira. Nessas situações, em que o inimigo não está colocando em risco o sigilo ou a segurança da nossa missão, devemos trabalhar bem. Dessa forma, evitamos represá­lias e um possível ferimento. Era nossa intenção ter todo o preparo físico e saúde possíveis no momento da fuga.

Foi-nos dito que um representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha iria visitar o campo naquela noite.

O Comandante Júlio nos levou para o banho. Disse, rindo, que era para estarmos bem apresentados para o representante da Cruz Vermelha. Nos fundos do campo havia uma bica que jorrava uma grande quantidade de água a um metro e meio do chão. Novamente eu, por ser o de número mais baixo, fui o primeiro a passar, com roupa e tudo. Além do frio, a água gelada, misturada à areia dentro da roupa e das botas, machucava a pele ainda mais.

Com os dentes batendo, voltamos para o buraco. Os guardas passavam o tempo jogando pás de areia sobre nós.

Fomos retirados do fosso e, uma a uma, as equipes foram examinadas por um médico.

Estava escurecendo e esfriando cada vez mais, não só por causa da noite que chegava. O tempo estava fechando. Ia chover…

Era hora de mais uma formatura geral do campo. Todos os pelotões foram coloca­dos no pátio central. Chovia torrencialmente, a ponto de não vermos mais de dez metros a nossa frente. Estava frio, muito frio…

O Comandante Raul começou a falar. Aquele oficial bricariano, acusado de traição, não era traidor. Ele apareceu, novamente uniformizado, e entregou os nossos companheiros que estavam planejando uma fuga. Os três foram pos­tos de cabeça pra baixo num tonel de água e depois espancados pelo oficial de disciplina.

Um soldado apareceu correndo e falou algo para o Comandante Castro. Os três brasileiros que estavam sendo torturados foram retirados rapidamente dali e começamos a ouvir um toque de corneta.

O representante da Cruz Vermelha estava chegando e lhe foram prestadas as hon­ras militares.

Os chefes das equipes foram reunidos e o recém-chegado se apresentou como monsieur Victor não-sei-de-quê, suíço, formado em direito internacional e representante da Cruz Vermelha para a América Latina. Ele pediu que fôssemos levados a uma sala em separado para conversar conosco, mas isso não foi concedido. Conseguiu apenas que os oficiais bricarianos ficassem um pouco afastados.

Fez-nos diversas perguntas. Dissemos que estávamos sendo bem tratados, pois não adiantaria de nada dizer algo diferente. Em pouco tempo estaríamos sendo transferidos desse campo e uma palavra errada só nos causaria represálias depois.

O monsieur Victor começou a discutir com o Comandante Raul sobre a Convenção de Genebra e o Comandante deu uma série de desculpas a respeito da falta de agasalho e comida para nós.

Depois de umas duas horas, o homem da Cruz Vermelha se foi. A chuva tinha se transformado numa garoa fina.

Após a saída dele, fomos conduzidos para o almoxarifado, do outro lado do muro. Vi que era o mesmo lugar onde, naquela manhã, eu havia deixado o meu material. Recebemos um saco cada um e nos mandaram colocá-lo na cabeça.

Fomos conduzidos, amarrados uns aos outros e embarcamos nos caminhões. Íamos ser transferidos para outro campo. Se tudo corresse bem, era a hora de fugir. Entrei no caminhão e, apesar da tensão, acabei dormindo. Estávamos exaustos.

Não sei quanto tempo passou, nem para que lado seguimos. No campo, nos manti­nham sempre de cabeça baixa e eu não tinha a mínima idéia de onde estávamos.

De repente, os tiros. Tentei me encolher ainda mais no chão do caminhão. A viatura parou.

Cessaram os tiros e alguém subiu na carroceria. Falou para o seguirmos. Tiramos o saco da cabeça e corremos por uns duzentos metros.

Paramos e ele se apresentou como Tenente Santiago, do 1º Destacamento de Ações de Comandos. Deu-nos uma bússola e uma mochila com equipamento para emergência: um rádio ERC-110, uma carta e painéis para balizamento de helicópteros, sinalizadores luminosos e outros materiais. Essa mochila estava lacrada e devia ser utilizada apenas quando realmente fôssemos ser resgatados. Várias equipes estavam atuando naquele momento e o Brasil não teria condições de resgatar todos de uma só vez. Além disso, ligar um rádio naquela situação, só iria atrair a atenção dos bricarianos.

Disse para seguirmos no azimute 032 e que tínhamos até o meio-dia de sexta-feira para chegarmos até o aeroporto de Resende, de onde seríamos exfiltrados, e sumiu no meio da noite.

Enfim livres. Livres, sozinhos, sem comida e sem saber onde estávamos.
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Continua em: Os doze condenados

23 April 2005

Operação Holocausto 3 - “Prisioneros, colaborem!”

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Capítulo anterior: Underground
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O pelotão parou e os primeiros homens foram ver se havia alguma maneira de transpor a grade. Acho que eu até preferia ter que roer a grade com os dentes do que ter que voltar por aquele túnel miserável.

Só que não foi preciso. Tirando todo o equipamento, dava para passar apertado nos vãos. Um a um, fomos tirando o equipamento e atravessando a gra­de. Do outro lado, a água caia por uns dez metros, até se chocar contra as pedras. O homem de trás da fila nos passava de volta o equipamento, o fuzil, a mochila e mais o que estivéssemos carregando e escalávamos os quatro metros da grade até uma plataforma de concreto de uns trinta centímetros de largura. Dali, nos equilibráva­mos e andávamos por alguns metros até a estrada e dali embarcamos nas viaturas Mercedes de transporte de tropas que nos esperavam.

Embarcamos e dormimos imediatamente. Eram mais ou menos cinco horas da manhã de quarta-feira e estávamos sem dormir desde a noite de domingo.

Fomos acordados com tiros de fuzil e a viatura se chocando contra a lateral da estrada. Os bricarianos haviam cercado nosso comboio; qualquer tentativa de reação seria puro suicídio.

Fomos tirados dos caminhões, já sem o armamento e o equipamento, e colocados de joelhos, com a cara no chão e as mãos pra trás. O motorista estava morto. Conduziram-nos a pé, vendados, por uns cinco minutos e dali fomos embarcados num helicóptero, provavelmente o mesmo Super Puma que estava patrulhando a represa.

Desembarcamos algum tempo depois num local que julgamos ser um campo de tria­gem, onde os prisioneiros ficam até ser evacuados para os campos de concentração pro­priamente ditos.

A primeira atividade foi entregar todo o nosso material pessoal, que no meu caso se resumiam ao relógio Casio G-Shock e as dog-tags. Entregamos também o nosso unifor­me e ficamos ape­nas com a sunga e os coturnos sem cadarço e sem meias.

Na sala seguinte, recebemos uma calça cortada na altura do joelho e uma blusa, com as mangas também cortadas e com um número nas costas. O meu era 097. Ali tam­bém foram retiradas as nossas vendas.

Nessa hora, um oficial, que se identificou como Comandante Júlio, assumiu o co­mando do nosso pelotão de prisioneiros.

A partir daí, todos os deslocamentos que fizemos foram de joelhos (“de rodilhos”, para os bricarianos). Rapidamente, eles ficaram esfolados, em carne viva.

O campo tinha um som ambiente. Era uma fita de, mais ou menos, cinco minutos, que tocava ininterruptamente.

Começava assim: “Normas del campo”. E falava onze itens diferentes, como o prisi­oneiro deve obedecer aos oficiais, não deve andar sozinho, deve manter a cabeça baixa, entre outras. Ao final de cada item, a mensagem: “Prisioneros, colaborem!”.

Após isso: “Se constituirá em motivo de fusilamiento”. E diversas outras instruções.

Para terminar, vinha:

Usted invadiram nuestras tierras, agrediram nuestra gente y arruinaram nuestra economia. La Bricária és una nación pobre, ño merecia tal agression.

“Brasileños, arrependam-se di corazon de sus crimes! Aqueles que o fiserem serão tratados como el soldado bricariano, orgulloso e decidido a combatir la nación invaso­ra, Brasil!”

Após isso, vinha a Canção da Bricária:

Fue hallá en quarenta y uno;
¡Fue hallá en frontera sur;
Donde nuestros compañeros
Dieram su vida por su ideal!

Premero quebraram seca;
Llegaram ao interior
¡Después foi la cordillera
Del Condor Grande com su región!”

A canção toda tem quatro estrofes, mas eu lembro só dessas duas.

O meu era o número mais baixo do pelotão. Assim, fui designado como chefe de uma das equipes de trabalho.

Durante o dia todo, tivemos diversas atividades. A primeira delas foi o interroga­tório. Um a um, fomos conduzidos até a viatura onde estava o Comandante Júlio. Lá, ele fazia diversas perguntas a respeito de nossa missão, comandantes, datas, senhas, etc. Eu não disse nada além do que o direito internacional me obriga a dizer – o nome completo e o número da identidade. Acredito que ninguém tenha dito nada além disso e, para nossa surpresa, o Comandante Julio não tomou nenhuma atitude mais violenta.

Entre uma atividade e outra, o pelotão ficava dentro de um fosso. Eram quarenta e três homens dentro de um buraco de mais ou menos um metro e vinte de largura por seis ou sete de comprimento e uns três de profundidade. Os oficiais do campo ficavam no alto, jogando areia e água sobre nós.

A atividade seguinte foi a foto. Uma equipe de cada vez, ao lado da bandeira da Bricária, junto com dois soldados bricarianos.

Logo após a foto, tivemos a formatura geral do campo. Nessa ocasião é que pude ver que havia vários outros pelotões de brasileiros capturados. Foi a primeira vez também que pude ver o campo de triagem como um todo. Ao norte do pátio, numa área aberta, ficava o nosso fosso e alguns outros. Um pouco à direita dos fossos, ficava o pavilhão principal, uma casa de fazenda, com a arquitetura típica da época colonial. A leste, um muro com portão separava o pátio e a casa grande da área que devia ter a casa dos empregados e as oficinas da fazenda. A fazenda toda, ou pelo menos a parte que eu conseguia ver, era cercada por um muro de mais de três metros.

Vimos, pela primeira vez, o comandante Raul, chefe do campo.

A finalidade dessa formatura era punir um oficial bricariano que havia traído seu país. O crime que ele havia cometido não ficou muito claro para nós e eu também não fiz muita questão de entender. Estava mais preocupado em entender como funcionava a rotina do campo.

Ele foi destituído de seu posto e foi amarrado por dois soldados e espancado com um cassetete pelo Comandante Castro. Este, ficamos sabendo depois, era o oficial de disciplina do campo. Parece que a Bricária era mais rígida com seus próprios filhos do que com os inimigos.

Em seguida, todos os chefes de equipe (eu entre eles) foram presos em separado para um interrogatório. O local para onde fomos era um compartimento, tão apertado que não dava pra ficar nem sentado direito; algum dia, deve ter sido uma despensa ou algo semelhante. O número mais baixo de todos, um sargento de outro pelotão que eu conhecia há muito tempo, foi chamado e começou a ser espancado pelos interrogadores. De dentro do porão, só ouvíamos as pan­cadas e os gritos dele.

Começamos a discutir um plano de fuga. Um de nós notou que tinha um homem a mais ali naquele porão escuro. Era o tenente que acabara de ser acusado de traidor. Agora ele também estava com a roupa de prisioneiro, com o número 126 nas costas.

Ele disse que sabia um jeito de fugir dali, todos os pelotões juntos, só que ele só ia falar com os nossos comandantes. Achamos estranha essa atitude. Não dissemos nada e pedimos para ele explicar o plano. Ele relutou em dizer e fomos tirados dali. Nosso companheiro “interrogado” não voltou.

Cada um voltou para o seu Pelotão. O meu estava na mesma sala na qual havíamos tirado a foto. Ali, o Comandante Júlio nos deixou dormir. Deitei no chão e apaguei, não sei por quanto tempo, não deve ter sido muito. Estávamos sem comida desde o jantar do dia anterior, só com um gole de água que recebemos logo que chegamos ao campo.
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Continua em: O trem da salvação

22 April 2005

Operação Holocausto 2 - Underground

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Capítulo anterior: Holocausto
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O comandante do Grupo de Destruição ligou os fios aos terminais do explosor e apertou o botão de teste. As luzes se acenderam no aparelho, indicando que o circuito estava funcionando corretamente. Em seguida, apertou simultaneamente os dois botões de acionamento do explosor. Uma pequena corrente elétrica percorreu algumas dezenas de metros de fio até alcançar a espoleta. Ao ser acionada, a espoleta detonou um tronco de cordel detonante. O cordel detonante é um pequeno tubo plástico, com uns cinco milímetros de diâmetro, recheado de Tetranitrato de Pentaeritritol. O PETN, como é conhecido, é um explosivo de cor branca e velocidade de queima superior a seis mil metros por segundo. A onda explosiva se espalhou do tronco para os ramais, também de cordel detonante.

Com alguns milésimos de segundo de diferença, as diversas cargas de TNT romperam o silêncio e a escuridão da noite. Missão cumprida!

Nosso retraimento atrasou um pouco, pois um dos grupos de segurança não estava onde deveria estar e tivemos que encontrá-lo.

Alguns minutos depois, no alto da represa, a espoleta do circuito pirotécnico foi detonada, já sem finalidade alguma.

Percorremos alguns quilômetros a pé, nos guiando pelas estradas, mas nunca permanecendo nela, praticamente correndo o tempo todo. Tínhamos informações que os bricariamos poderiam receber reforços, incluindo tro­pas blindadas, em menos de trinta minutos.

Finalmente, chegamos ao lugar que procurávamos: a entrada de um aqueduto subterrâneo. Esse aqueduto funcionava como o “ladrão” da represa; por onde a água escoava nas épocas de maior cheia. Não havia melhor lugar para escaparmos, principalmente porque os bricarianos contavam com aquele helicóptero Super Puma voando sobre nossas cabeças.

Esse aqueduto tinha 3800 metros de comprimento e as viaturas estariam nos espe­rando na saída dele, para nos levarem de volta ao Brasil.

Havia, no início do túnel, um aclive impossível de ser escalado contra a correnteza. Por isso, os mesmos operadores de Forças Especiais que nos deram os botes já haviam instalado cordas no local pra facilitar a abordagem.

Depois que todos haviam entrado no túnel, iniciamos a nossa marcha. A água es­tava no nível do joelho e centenas de morcegos saíram voando ao mesmo tempo, revolta­dos com a invasão do seu lar. A única vantagem é que o aqueduto era abafado, menos frio que no lado de fora.

Andávamos segurando na mochila do homem da frente, sem ver absoluta­mente nada, apenas sentindo a correnteza contra nossos pés, os morcegos batendo no rosto e tomando o cuidado de não enfiar um pé em um buraco qualquer. Ia ser bem difí­cil se, além de tudo, tivéssemos que carregar alguém machucado ali dentro. Só o primeiro homem da fila ia com a lanterna. Depois de 1h40min de tropeções e pés torcidos, tombos e xingamen­tos, uma luz no fim do túnel, literalmente.

Chegamos à outra extremidade do aqueduto… Fechada por uma enorme grade de ferro.
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Continua em: “Prisioneros, colaborem!”

21 April 2005

Operação Holocausto

Filed under: Diversos, Militar

Academia Militar das Agulhas NegrasGoogle Earth, 02 de agosto de 1994

Toda a terça-feira foi dedicada aos planejamentos e ensaios. Contávamos com a ajuda de engenheiros da Eletrobrás que trabalhavam no local. Mostraram, nas plantas, os locais onde deveríamos colocar as cargas explosivas. Nossa missão era interditar a Usina Hidrelétrica do Funil, de modo que ela não produzisse energia por, no mínimo, quinze dias. Os bricarianos estavam realizando pesquisas avançadas para a obtenção de tecnologia de armamentos nucleares. Essas pesquisas dependiam diretamente da energia gerada pela usina do Funil.

A interdição da usina não implica em destruir totalmente a barragem, o que inundaria várias cidades próximas. Precisávamos apenas destruir o tubo principal do sistema hidráulico que controla as com­portas das turbinas e a grua que substitui o sistema hidráulico. Ao todo, seriam usados menos de quatro quilos de explosivo: dois quilos, setecentos e cinqüenta gramas de TNT no tubo do sistema hidráulico e quinhentos gramas em cada um dos dois trilhos da grua.

Nessa operação, eu estava no grupo de destruições e minha missão específica era instalar a carga explosiva no trilho direito do guindaste. Carregava comigo, além dos explosivos, o fuzil FAL com cinco carregadores completos, duas rações operacionais R-2 para vinte e quatro horas cada uma, uma ração AE (Alimentação de Emergência), um colete salva-vidas para a infiltração fluvial, dois cantis de um litro cada, a faca de trincheira, uma lanterna cotovelo com lentes verdes e vermelhas para sinalização e a mochila com o material individual e de sobrevivência. O meu equipamento, por volta de vinte e cinco quilos, estava longe de ser um dos mais pesados do pelotão.

Guarnecendo a represa, havia um pelotão de Polícia do Exército e um Destacamen­to de Ações de Comandos, alojados no prédio da administração, na base da represa. Duas sentinelas guardavam a parte superior da represa, cem metros acima, onde se desenrolaria a ação principal, enquanto uma terceira ficava vigiando do alto de um pórtico, sobre o vertedouro da re­presa, mais a leste. Havia também um pequeno alojamento para o comandante e o cabo da guarda sobre a represa e ainda uma patrulha fluvial de quatro ou cinco homens num pequeno bote, que rondava no setor à frente da barragem.

Às dezoito horas, partimos da base em duas viaturas e fomos até a Barragem de Nhangapi. Lá, fizemos contato com dois operadores das Forças Especiais que haviam se infiltrado com antecedência. Eles nos forneceram botes pneumáticos para continuarmos a nossa infiltração.

Os cinco botes Zephyr, com motores de popa Yamaha 40 HP, começaram a vencer os quinze quilômetros que nos separavam do nosso objetivo. A lua estava cheia e a noite bem clara. Seguimos próximos às margens, para que as sombras nos ocultassem. Por duas vezes, um helicóptero CH-34 Super Puma dos bricarianos, passou com seu farol de busca bem próximo dos nossos botes.

Faltando pouco menos de dois quilômetros para a represa, desligamos os motores e seguimos a remo, para não quebrarmos o sigilo. Nessa situação, tínhamos que usar uma técnica especial para remar, sem nunca tirar os remos de dentro d’água, para que não fizéssemos nenhum barulho, nem mesmo o das gotas pingando. Com os rostos pintados de preto, motores desligados, ocultos pelas sombras das elevações nas margens da represa, éramos literalmente invisíveis.

Desembarcamos na última enseada antes do objetivo e, da lá, partimos a pé.

Ocupamos o Ponto de Reunião Próximo do Objetivo sob uma torre de alta tensão e nós, do Grupo de Destruições, aproveitamos para preparar as cargas ex­plosivas e os cordéis detonantes.

O Grupo de Segurança Três e um dos elementos do Grupo de Silenciamento de Sen­tinelas não vieram para o PRPO. Do ponto de desembarque, eles partiram direto para o outro lado da represa, fazendo uma infiltração subaquática, com nadadeiras e snorkel. Era a parte mais delicada da operação; eles teriam que nadar por mais de um quilômetro sob a água, se orientando com apenas uma bússola. Qualquer tentativa de pôr a cabeça para fora da água poderia denunciar a posição e comprometer toda a missão. A água estava gelada e a hipotermia não era apenas um risco remoto. Além disso, todo o grupo poderia ser literalmente atropelado pelo bote que vigiava a represa.

A infiltração subaquática é realizada usando uma técnica chamada espinha-de-peixe. As mochilas e demais equipamentos, devidamente impermeabilizados, dos seis integrantes do grupo são dispostos e amarrados em fila. Dessa linha de mochilas, saem seis retinidas – cordas de meio centímetro de espessura – de dois metros de comprimento. Essas retinidas são dispostas de modo que fiquem três para cada lado da linha de mochilas e são amarradas ao cinto de cada um dos mergulhadores. Dessa maneira, eles nadam em duas colunas de três homens, puxando, entre as duas colunas, todo o material.

Continuamos avançando e ocupamos nossas posições.

Como não possuíamos os hand-talkies, usados para as comunicações entre pequenos grupos, as coordenações foram feitas com base em horários cronometra­dos durante os ensaios. Na hora exata, as três sentinelas foram eliminadas. O Grupo de Silen­ciamento estava usando metralhadoras alemãs Heckler & Koch MP5A3, com silenciadores e munição de nove milímetros subsônica, um método muito mais seguro, eficaz e higiênico que facas ou garrotes.

Rapidamente, outro grupo invadiu o alojamento do comandante da guarda e eliminou seus ocupantes. Este grupo utilizava pistolas Walther P-38, também alemãs, também com munição de nove milímetros subsônica e silenciadores.

A represa estava em segurança. Duas piscadas com uma lanterna de luz verde fo­ram a senha para que os outros grupos saíssem de seus esconderijos e iniciassem suas atividades.

O Grupo de Apoio de Fogo entrou em posição com suas metralhadoras MAG e ca­nhões sem recuo para caso o inimigo resolvesse ficar um pouco mais violento.

Meu grupo também avançou e instalei a minha carga de quinhentos gramas de explosivo no local previs­to e conectei-a aos troncos principal e de reserva do cordel detonante. Sempre temos que montar um circuito duplo para a explosão, para se caso um deles falhe, não termos que nos aproximar dos explosivos para ver o que aconteceu. O circuito principal normalmente é elétrico e tem a vantagem de podermos detoná-lo no momento exato. O circuito de reserva é pirotécnico. Não podemos prever o momento exato da detonação no circuito pirotécnico, apenas fazemos um cálculo aproximado. A vanta­gem deste é que, se corretamente montado, é praticamente a prova de falhas, inclusive debaixo d’água. O estopim queima a uma velocidade média de um centímetro por segundo. Antes de sairmos para a missão, sempre realizamos um teste de queima para melhorar a precisão dos nossos cálculos.

Um cuidado que tínhamos que tomar era o de ficar o tempo todo abaixados. A patrulha fluvial ainda rondava à frente da represa e poderia nos ver se projetássemos nossas silhuetas contra o céu.

O estopim do circuito pirotécnico foi aceso. Teríamos, a partir daquele momento, dez minutos para abandonar a represa. Voltamos para a nossa posição de espera, a uns cem metros dali, na extremidade oeste da barragem, estendendo o fio do circuito elétrico.

A operação transcorria perfeita; o sigilo ainda não havia sido quebrado. Todos os que sabiam da nossa presença na represa já estavam mortos.

Os grupos que estavam a leste da barragem - o Grupo de Segurança Três e aquele elemento do Silenciamento de Sentinelas - retornaram para onde estava o restante do Pelotão.
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Continua em: Underground

20 April 2005

O e-Lidiofin

Filed under: Diversos

Antes que os não-iniciados continuem me perguntando, o Lidiofin era um diário que várias pessoas escreviam, no meu tempo de segundo grau.

Os cadernos ficaram comigo. São quinze volumes, a maioria deles com quatrocentas páginas.

O que significa Lidiofin? No primeiro volume do Lidiofin, escrito há dezessete anos, encontrei o significado: Livro Diário Oficial Integrado. É oficial porque eu tinha treze anos de idade e estava escrevendo algo sério. Porque é integrado? Continuo sem saber.

Estou começando hoje a publicação da histórias do Lidiofin. Acho que tem algumas histórias muito legais para ficaram perdidas em alguns cadernos caindo aos pedaços no fundo do armário.

A primeira delas deu-se em agosto de 1994. Ela será dividida em quatro ou cinco capítulos, em posts diários.

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