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21 April 2005

Operação Holocausto

Filed under: Diversos, Militar

Academia Militar das Agulhas NegrasGoogle Earth, 02 de agosto de 1994

Toda a terça-feira foi dedicada aos planejamentos e ensaios. Contávamos com a ajuda de engenheiros da Eletrobrás que trabalhavam no local. Mostraram, nas plantas, os locais onde deveríamos colocar as cargas explosivas. Nossa missão era interditar a Usina Hidrelétrica do Funil, de modo que ela não produzisse energia por, no mínimo, quinze dias. Os bricarianos estavam realizando pesquisas avançadas para a obtenção de tecnologia de armamentos nucleares. Essas pesquisas dependiam diretamente da energia gerada pela usina do Funil.

A interdição da usina não implica em destruir totalmente a barragem, o que inundaria várias cidades próximas. Precisávamos apenas destruir o tubo principal do sistema hidráulico que controla as com­portas das turbinas e a grua que substitui o sistema hidráulico. Ao todo, seriam usados menos de quatro quilos de explosivo: dois quilos, setecentos e cinqüenta gramas de TNT no tubo do sistema hidráulico e quinhentos gramas em cada um dos dois trilhos da grua.

Nessa operação, eu estava no grupo de destruições e minha missão específica era instalar a carga explosiva no trilho direito do guindaste. Carregava comigo, além dos explosivos, o fuzil FAL com cinco carregadores completos, duas rações operacionais R-2 para vinte e quatro horas cada uma, uma ração AE (Alimentação de Emergência), um colete salva-vidas para a infiltração fluvial, dois cantis de um litro cada, a faca de trincheira, uma lanterna cotovelo com lentes verdes e vermelhas para sinalização e a mochila com o material individual e de sobrevivência. O meu equipamento, por volta de vinte e cinco quilos, estava longe de ser um dos mais pesados do pelotão.

Guarnecendo a represa, havia um pelotão de Polícia do Exército e um Destacamen­to de Ações de Comandos, alojados no prédio da administração, na base da represa. Duas sentinelas guardavam a parte superior da represa, cem metros acima, onde se desenrolaria a ação principal, enquanto uma terceira ficava vigiando do alto de um pórtico, sobre o vertedouro da re­presa, mais a leste. Havia também um pequeno alojamento para o comandante e o cabo da guarda sobre a represa e ainda uma patrulha fluvial de quatro ou cinco homens num pequeno bote, que rondava no setor à frente da barragem.

Às dezoito horas, partimos da base em duas viaturas e fomos até a Barragem de Nhangapi. Lá, fizemos contato com dois operadores das Forças Especiais que haviam se infiltrado com antecedência. Eles nos forneceram botes pneumáticos para continuarmos a nossa infiltração.

Os cinco botes Zephyr, com motores de popa Yamaha 40 HP, começaram a vencer os quinze quilômetros que nos separavam do nosso objetivo. A lua estava cheia e a noite bem clara. Seguimos próximos às margens, para que as sombras nos ocultassem. Por duas vezes, um helicóptero CH-34 Super Puma dos bricarianos, passou com seu farol de busca bem próximo dos nossos botes.

Faltando pouco menos de dois quilômetros para a represa, desligamos os motores e seguimos a remo, para não quebrarmos o sigilo. Nessa situação, tínhamos que usar uma técnica especial para remar, sem nunca tirar os remos de dentro d’água, para que não fizéssemos nenhum barulho, nem mesmo o das gotas pingando. Com os rostos pintados de preto, motores desligados, ocultos pelas sombras das elevações nas margens da represa, éramos literalmente invisíveis.

Desembarcamos na última enseada antes do objetivo e, da lá, partimos a pé.

Ocupamos o Ponto de Reunião Próximo do Objetivo sob uma torre de alta tensão e nós, do Grupo de Destruições, aproveitamos para preparar as cargas ex­plosivas e os cordéis detonantes.

O Grupo de Segurança Três e um dos elementos do Grupo de Silenciamento de Sen­tinelas não vieram para o PRPO. Do ponto de desembarque, eles partiram direto para o outro lado da represa, fazendo uma infiltração subaquática, com nadadeiras e snorkel. Era a parte mais delicada da operação; eles teriam que nadar por mais de um quilômetro sob a água, se orientando com apenas uma bússola. Qualquer tentativa de pôr a cabeça para fora da água poderia denunciar a posição e comprometer toda a missão. A água estava gelada e a hipotermia não era apenas um risco remoto. Além disso, todo o grupo poderia ser literalmente atropelado pelo bote que vigiava a represa.

A infiltração subaquática é realizada usando uma técnica chamada espinha-de-peixe. As mochilas e demais equipamentos, devidamente impermeabilizados, dos seis integrantes do grupo são dispostos e amarrados em fila. Dessa linha de mochilas, saem seis retinidas – cordas de meio centímetro de espessura – de dois metros de comprimento. Essas retinidas são dispostas de modo que fiquem três para cada lado da linha de mochilas e são amarradas ao cinto de cada um dos mergulhadores. Dessa maneira, eles nadam em duas colunas de três homens, puxando, entre as duas colunas, todo o material.

Continuamos avançando e ocupamos nossas posições.

Como não possuíamos os hand-talkies, usados para as comunicações entre pequenos grupos, as coordenações foram feitas com base em horários cronometra­dos durante os ensaios. Na hora exata, as três sentinelas foram eliminadas. O Grupo de Silen­ciamento estava usando metralhadoras alemãs Heckler & Koch MP5A3, com silenciadores e munição de nove milímetros subsônica, um método muito mais seguro, eficaz e higiênico que facas ou garrotes.

Rapidamente, outro grupo invadiu o alojamento do comandante da guarda e eliminou seus ocupantes. Este grupo utilizava pistolas Walther P-38, também alemãs, também com munição de nove milímetros subsônica e silenciadores.

A represa estava em segurança. Duas piscadas com uma lanterna de luz verde fo­ram a senha para que os outros grupos saíssem de seus esconderijos e iniciassem suas atividades.

O Grupo de Apoio de Fogo entrou em posição com suas metralhadoras MAG e ca­nhões sem recuo para caso o inimigo resolvesse ficar um pouco mais violento.

Meu grupo também avançou e instalei a minha carga de quinhentos gramas de explosivo no local previs­to e conectei-a aos troncos principal e de reserva do cordel detonante. Sempre temos que montar um circuito duplo para a explosão, para se caso um deles falhe, não termos que nos aproximar dos explosivos para ver o que aconteceu. O circuito principal normalmente é elétrico e tem a vantagem de podermos detoná-lo no momento exato. O circuito de reserva é pirotécnico. Não podemos prever o momento exato da detonação no circuito pirotécnico, apenas fazemos um cálculo aproximado. A vanta­gem deste é que, se corretamente montado, é praticamente a prova de falhas, inclusive debaixo d’água. O estopim queima a uma velocidade média de um centímetro por segundo. Antes de sairmos para a missão, sempre realizamos um teste de queima para melhorar a precisão dos nossos cálculos.

Um cuidado que tínhamos que tomar era o de ficar o tempo todo abaixados. A patrulha fluvial ainda rondava à frente da represa e poderia nos ver se projetássemos nossas silhuetas contra o céu.

O estopim do circuito pirotécnico foi aceso. Teríamos, a partir daquele momento, dez minutos para abandonar a represa. Voltamos para a nossa posição de espera, a uns cem metros dali, na extremidade oeste da barragem, estendendo o fio do circuito elétrico.

A operação transcorria perfeita; o sigilo ainda não havia sido quebrado. Todos os que sabiam da nossa presença na represa já estavam mortos.

Os grupos que estavam a leste da barragem - o Grupo de Segurança Três e aquele elemento do Silenciamento de Sentinelas - retornaram para onde estava o restante do Pelotão.
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Continua em: Underground

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