Capítulo anterior: Floripa - Capítulo II
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Estávamos na ilha há mais de uma semana já, hospedados no Albergue da Juventude. O restante do pessoal que veio conosco tinha acabado de partir de volta para São Paulo. Nós iríamos dar uma volta a pé pelo sul da ilha de Santa Catarina, começando ali em Armação e terminando em Caieiras, em aproximadamente três dias.
Acordamos bem cedo, não sei que horas. Arrumamos as nossas coisas, descemos para a praia e tomamos café nas mesmas mesinhas do dia anterior. Tínhamos, ao todo, doze pacotes de bolachas, ou seja, quatro para cada dia. Dividimos dois para o café da manhã, um para o almoço e um para o jantar.
Abrimos uma das caixas de leite que o Massashi havia trazido e descobrimos que, apesar da caixinha Tetra Pak, o dito-cujo não era longa vida. Estava azedo.
Fizemos o meu leite em pó e, depois do café, fomos à casa de uma senhora pedir para ela ferver o leite azedo para nós e fazer uma coalhada. De coalhada, o negócio foi logo promovido a ricota, para soar melhor aos nossos ouvidos e estômagos.
Reabastecemos nossos cantis - cada um levava uma garrafa de Big Coke - e começamos a caminhada.
Passamos para a Praia do Matadeiro e topamos com a segunda ninfa loira da nossa viagem. Uma menina linda e diáfana, com um vestidinho branco esvoaçante, uma sílfide. Perguntamos para ela onde é que ficava a trilha para a Lagoinha do Leste, nossa próxima parada. Ela não tinha a mínima idéia. Mas valeu a pena só por falar com ela.
Fizemos a mesma pergunta para um velho que estava de cócoras, mascando fumo - “gengivando” seria a expressão correta, pois o velho não tinha dentes. Ele começou a falar e babar. Disse que se entrássemos na mata, nunca mais sairíamos de lá, que ele era o primeiro morador da região, que sabia de tudo e que nós íamos morrer. E deu uma cuspida de lado, como que para selar a maldição.
Depois dessa introdução, ele finalmente indicou o início da trilha. E lá fomos nós, devidamente amaldiçoados pelo velho banguela.
O xerox da reportagem que falava dessa caminhada estava comigo. Dizia que a trilha tem três bifurcações e, em todas elas, devíamos seguir à direita. Assim fizemos. A trilha é bem aberta, fácil de ser seguida.
Com pouco mais de uma hora e meia, fizemos nossa primeira parada para descansar. Chupamos algumas das milhares de laranjas que o pessoal nos deu lá no albergue, reajustamos as mochilas e descansamos por quinze minutos.
Pouco depois, demos num descampado cheio de caminhos de vaca. Era lá que o velho disse que íamos nos perder.
O lugar era cheio de pedras, espinheiros e bromélias. Na reportagem dizia que seriam pedras, espinheiros e orquídeas. O autor deve ter dito orquídeas para dar um ar mais exótico, mas eu não vi nenhuma por lá. Dali dava para ver umas paisagens lindas, inclusive uma caverna de uns vinte metros de altura, que dava para o mar.
Continuamos a andar até chegarmos no ponto mais alto dessa região. Já dava para ver a Praia da Lagoinha do Leste
, considerada a praia deserta mais bonita de toda a ilha.
Chegamos à praia às dez da manhã, depois de quase três horas de caminhada.
O lugar é um paraíso, o Flipper disse que só faltou a Brooke Shields com seu biquinizinho de pelúcia da Lagoa Azul. Lá havia uma lagoa mesmo, com água limpa, porém salgada, e peixinhos. Em alguma época do ano, o mar deve chegar até lá.
Nadamos um pouco, ficamos lagartando ao sol e depois fomos procurar um lugar para montar acampamento. Havia mais pessoas acampando ao redor da lagoa.
Encontramos um lugar bom, entre a praia e a lagoa, plano, com algumas árvores e até um lugar com pedras, pronto para se fazer uma fogueira.

Acampamento na Lagoinha do Leste, do Lidiofin original

E a foto do acampamento
Almoçamos pão com mortadela e ricota, bolachas e suco e dormimos a tarde toda.
Acordamos por volta das cinco da tarde e começamos a tomar as providências para a noite.
O Piloto, o Mogli e o Flipper foram ver onde é que se pegava água, enquanto o Massashi e eu dávamos uma geral no acampamento.
Cavamos um buraco para proteger o fogareiro do vento, juntamos um pouco de lenha para a fogueira e joguei o nosso anzol na lagoa.
Demorou para eu descobrir do que é que os peixes gostavam. O que deu certo foi uma frutinha de um pé parecido com um tomateirozinho, todo espinhento. Deu certo em termos, pois conseguir pegar apenas um lambarizinho de seis centímetros.
O pessoal que saiu para pegar água se deu melhor. Além da água, trouxeram um monte de mariscos que cataram nas pedras.
O jantar consistiu de miojo e mariscos com pomodoro, limão e curry. Os mariscos eram limpos no canivete e cozidos até as conchas se abrirem. Quem nos ensinou foi um uruguaio que conhecemos no albergue.
Acabamos com os mariscos e as bolachas do jantar e saímos um pouco do bosque para deitarmos na areia e olhar o céu.
Como acontece com todos que ficam um tempo parados, olhando para o céu, começamos a viajar, a falar do infinito, das estrelas, da relatividade… até ver as primeiras estrelas cadentes.
Dizem que não se pode contar os desejos que fazemos às estrelas cadentes, caso contrário eles não acontecem.
Eu, em particular, não tinha nada de especial para pedir. O Piloto estava todo bonzinho, fazendo pedidos humanitários, enquanto o Massashi pedia uma escada rolante para subirmos o morro que teríamos que enfrentar no dia seguinte. O Mogli e o Flipper, coitados, nem conseguiam ver as estrelinhas caindo.
Foi ficando tarde e resolvemos ir dormir. Montamos um abriguinho fuleiro com a lona plástica e entramos os cinco debaixo dele. Não tínhamos barraca também. Ali do lado, a fogueira continuava a queimar.
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Continua em: Floripa - Capítulo IV