e-Lidiofin

21 July 2005

A Trilha do Cabral - 11: Quebrando as regras

Capítulo anterior: Porto Seguro
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Nessa noite foi o nosso dia de fazer o programa. Levamos as meninas para o centro histórico, subimos uma enorme escadaria e ficamos na mureta da igreja mais alta para ver a lua cheia nascer e falar para elas coisas da terra, do céu e do mar.

Voltamos para o Albergue e fomos fazer a gororoba de despedida; elas iriam embora no dia seguinte.

Aí começaram os problemas que acabam com a noite de qualquer um. Nossa idéia era fazer o jantar e comer na beira piscina do Albergue. Só que a piscina fechava as oito da noite. Fomos falar com a Telma, a mãe do Albergue. Ela não deixou. Não que quiséssemos fazer uma suruba no Albergue, mas não podíamos entrar no andar das meninas nem para chamá-las para sair.

Voltando ao problema do jantar na beira da piscina, argumentamos filosoficamente, enfocando a nossa liberdade enquanto seres humanos e a total falta de propósito de se fechar a piscina a partir das oito da noite. Mas não deu certo.

Who dares, wins. Resolvemos fazer o jantar no nosso quarto. Porém surgiram outros dois problemas: como levar a comida para o quarto (era proibido comer nos quartos) e como levar as meninas para lá. O primeiro nós resolvemos, o segundo, deixamos elas se virarem um pouco também.

Usar a precária cozinha do Albergue foi a única concessão que conseguimos da Telma. Havia uma pequena janela que dava num banheiro. Eu fiquei com as panelas no fogão e o Piloto, fingindo uma VRC (vontade repentina de cagar), entrou no banheiro, com mochila e tudo. Eu, mais do que esperto, passei as panelas para ele pela janelinha e ele as levou para o quarto. O problema é que na mochila não cabiam todas e ele teve que voltar ao banheiro umas três vezes em dez minutos, sempre com a mochila. Simples e discreto.

Passadas todas as panelas, saí da cozinha com a minha rematada cara-de-pau e fui para o quarto também. Arrumamos as coisas e interfonamos para as gurias. O cardápio da noite constava de arroz, strogonoff de frango, salada e Tang. Para dar um ar mais rústico ao evento, o jantar era no chão mesmo forrado com uma manta de velame de pára-quedas, iluminado com um lampiãozinho de vela de citronela e o suco estava no cantil prateado de cinco litros. E elas gostaram ainda.

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O jantar secreto no Albergue

Depois do jantar, ainda demos uma saidinha. Fomos ao bar do Cabral, um bar de portugueses, como sugere o nome.

No dia seguinte, logo cedo, partia o ônibus das meninas. Elas iam ainda para Cumuruxatiba. Levamos a Denise e a Cris até a Rodoviária e voltamos para o Albergue. Nosso ônibus era só à tarde. Ficamos lá naquela situação pastosa, sem nada para fazer até a hora de partirmos.

A volta de vinte e quatro horas de ônibus nem merece ser contada.

Assim terminava o maior programa de índio que eu fiz até agora.

Valeu a pena?
Tudo vale a pena,
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador,
Tem que passar além da dor.
Deus, ao mar, o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle espelhou o céu.

F.P.

F I M

19 July 2005

A Trilha do Cabral - 10: Porto Seguro

Capítulo anterior: Assédio sexual
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Quatro quilômetros de estrada e chegamos à balsa. Atravessamos para o outro lado e enfim Porto Seguro! Prado estava há dez dias e cento e cinqüenta e cinco quilômetros de distância. Fizemos cinqüenta e quatro quilômetros de barco e cento e um a pé.

Chegando em Porto Seguro, telefonamos para o Albergue da Juventude de lá. Havíamos combinado de encontrar a Denise, a Fabi e a Cris lá. Só que elas não estavam. Só pegamos o endereço. Era do outro lado da cidade! Bem que podia ser mais perto…

Mas, o que é uma chaga a mais para um lazarento? Fomos andando e aproveitamos para conhecer a cidade. Não sei o que o povo vê em Porto Seguro. A cidade é feia e suja, a praia é mais suja ainda. Para todo lado só se vê turistas com camisetas do tipo “estive em Porto Seguro e lembrei de você”, com algum desenho obsceno nas costas.

Lá foi o primeiro lugar que eu vi aqueles orelhões temáticos. Os de lá eram em forma de berimbau ou de coqueiro. Havia pelas ruas também as baianas vendendo acarajés que não inspiravam a mínima confiança; não serviam nem para experimentar por curiosidade antropológica.

Conseguimos chegar ao Albergue. Parecia mais um hotel, todo arrumadinho e cheio de formalidades. Tinha horário para isso e para aquilo, tinha uma fitinha para amarrar no braço para o segurança nos deixar entrar, tinha andares separados para homens e mulheres. Não tinha cozinha, mas tinha uma cantina meio cara para um albergue da juventude. Os outros albergues que eu conhecia eram um pouco mais bagunçados, o que dá um ar mais “da juventude”, mas nem sempre é uma vantagem. Ficamos lá mesmo. As meninas tinham ido para a praia, menos a Fabi, que já tinha voltado para Sampa. Uma pena; queríamos tê-la encontrado, para contar as aventuras desde que tínhamos nos separado, em Caraívas.

Deixamos nossas coisas no quarto (que tinha até telefone!) e saímos para almoçar. Procuramos por um PF bem grande e barato, daqueles de caminhoneiro mesmo. Demorou, mas encontramos. Enquanto comíamos, discutimos sobre como existiam lugares bem arrumados e que não tinham o mínimo charme (o Albergue de Porto Seguro), lugares bem simples, mas super legais (a Pousada Sol da Manhã, em Trancoso) e lugares muito simples, feios, sem charme nenhum e com comida ruim (o lugar onde estávamos). Para se ter uma idéia, não tinha nem Coca-Cola; só Crush.

A próxima dificuldade foi encontrar o caminho de volta para o Albergue. Quan­do achamos, as meninas não tinham chegado ainda. Fomos para o quarto e na falta de algo melhor para fazer, ficamos falando com as meninas do quarto de cima pelo telefone. O Piloto ligou e disse que era o “Louco por Lee”, vê se pode uma coisa dessas! Aproveitamos também para dar uma passada na parte histórica da cidade, que fica bem em frente ao Albergue.

Lá pelas três ou quatro da tarde, a Denise e Cris chegaram. A Cris era a troncudinha amiga de faculdade da Denise, que a gente conhecia de nome, mas não sabia como era a cara. E era aniversário dela. Parabéns!

Pusemos em dia as nossas histórias e elas nos apresentaram um cara que conheceram por lá. Era um oficial temporário de Material Bélico que dizia que a única utilidade dele ser oficial do Exército era poder entrar nas baladas sem pagar! Isso revolta quem tinha acabado de se formar depois de quatro anos de ralação na Academia Militar.

À noite, as meninas levaram a gente para conhecer a cidade. O point de lá é a tal da passarela do álcool, a avenida principal da cidade que, à noite, vira uma Sodoma e Gomorra. Andamos para lá e para cá, sem parar em lugar nenhum. As meninas ainda encararam uma boate, mas nós, sem grana nenhuma, voltamos para o Albergue.

No dia seguinte, as meninas acordaram antes da gente. Tomamos o café e fomos para praia do Virasol.

A praia era longe, mas com a Denise e seus atributos, conseguimos carona rapidinho.

Como eu já falei, as praias de Porto Seguro não são as mais bonitas. O povo vai para lá por causa de festa que fazem. Virasol não era diferente. Tem até um palco na praia.

O que estava mais na moda era a música do Tchan, que tinha sido lançada ali mesmo. Mas tocavam também a Dança da Garrafa, o Rala-Pinto e outras obscenidades do mesmo calibre. E o povo ainda subia no palco para dançar! Eu não nasci para isso.

Os garçons dos bares fazem um show à parte, cada um berrando e batendo nas bandejas mais que o outro.

Voltamos de lá já tarde e fomos almoçar só às cinco da tarde. Almoçamos num restaurante self-service por quilo, ao lado do Albergue, que dava desconto para quem estava hospedado lá.
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Continua em: Quebrando as regras

18 July 2005

A Trilha do Cabral - 9: Assédio sexual

Capítulo anterior: Os ritos da lua cheia
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Arraial já é totalmente civilizada. Aliás, é civilizada até demais. A praia é cheia de barzinhos e toda suja.

Para chegar à cidade, a última provação: uma enorme ladeira. Subindo, o Piloto até encontrou um cara que estudava francês com ele.

Chegamos e começamos a procurar um lugar para ficar. O bom é que a cidade, além das pousadas, é cheias de campings; todo mundo que tem um quintal grande monta um.

Dessa vez o Piloto que saiu para procurar primeiro. Pôs a sua camiseta da sorte e eu fiquei na praça, cuidando das mochilas.

O Piloto foi em um que não gostou; disse que o santo não bateu. Agora o segundo que ele viu foi excelente: um lugar massa, com sombra, bon marché, dentro de um convento de freiras carmelitas. Segundo os experts, as carmelitas é que são as mais fogosas. Que idéia, montar um convento em Arraial d’Ajuda…

Melhor ainda, na barraca ao nosso lado estavam duas loiras criadas no Toddy. Eu, como profundo conhecedor do assunto, chutei que eram de Santa Catarina.

Almoçamos torradas com patê de salmão (estamos no mato, mas não perdemos a classe, como diria a Fabi) e fomos dar um rolê pela cidade. Compramos e escrevemos postais e fomos para a praia.

Na praia, sentamos num barzinho. Uma coroa de Belo Horizonte veio puxar papo conosco. O Piloto percebeu que ela estava nos usando sexualmente, para fazer ciúmes para o dono do bar, com quem ela estava conversando antes. Chegamos ao um consenso que, com a fome e a falta de dinheiro que estávamos, até venderíamos nossos corpos jovens por uma Coca-Cola. Só que não deu certo. A coroa queria ação e o dono do bar queria ficar olhando a lua.

Continuamos o papo com a coroa. Era daquelas que vêm de avião para Porto Seguro e de táxi para Arraial. E estava na pousada mais cara da cidade. Continuamos enrolando a dita-cuja, só que nem um jantar ela ofereceu.

Voltamos para o camping. O jantar se resumiu a capuccino com uns restos de torrada e o que sobrou do patê.

Fomos falar com as loiras. Eram a Rosita e a Daniela, as duas de Blumenau – acertei! Sou bom nisso. Ficamos um tempão falando com elas e, já bem tarde, saímos.

Demos umas voltas pela cidade, vimos um cara que também estava acampado lá no convento tocando em um bar e paramos na Broadway. Essa rua é o point de Arraial, para onde vai todo mundo que quer ver e ser visto. O Piloto tomou um capeta e eu fiquei no sorvete mesmo. Ficamos batendo um papo filosófico até tarde da noite.

Voltamos para o Convento. A Rosita e a Dani já tinham dormido. Bah! Fiquei ainda um tempo acordado escrevendo essas coisas que vocês estão lendo agora, dez anos depois, mas o Piloto desmaiou.

No dia seguinte, fomos acordados da maneira mais pitoresca dessa viagem: com os grunhidos e sussurros do cantor do bar e da namorada dele que estavam fazendo sabe-se lá o quê dentro da barraca.

Acertamos nossas contas e partimos, decepcionados com as carmelitas, que nem deram o ar de sua graça. Estávamos com um problema muito sério: nosso dinheiro e nossa comida estavam acabando.

Dessa vez teríamos que desvirtuar a nossa empreitada. Para chegar a Porto Seguro, teríamos que apanhar uma balsa, e só dá para chegar até ela pela estrada e não pela praia.
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Continua em: Porto Seguro

17 July 2005

A Trilha do Cabral - 8: Os ritos da lua cheia

Capítulo anterior: Quase o fim do mundo
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Trancoso é o lugar mais cool de todo o sul da Bahia. Vira e mexe, tem um monte de gente famosa por lá. O legal de Trancoso, além das praias, é a praça central da cidade, chamada de Quadrado. Lá ficam os bares, restaurantes, pousadas, a galera que vende artesanato, os hippies, o povo que joga vôlei, os que jogam futebol, a galera cabeça que pinta e escreve poesias e os que não fazem nada disso e vão lá ver os outros fazerem (que era o nosso caso).

Entrando no Quadrado, perguntamos para um bicho-grilo que vendia uns artesanatos de arame se ele conhecia uma pousada boa. Claro que ele conhecia. Era a melhor do Quadrado, com preços baixos, comida boa, quartos confortáveis. E, ainda por cima, a dona da pousada era a mãe dele.

Andamos mais um pouco até que o Piloto achou a pousada mais descolada da face da Terra. Era a “Sol da Manhã”. Os donos da pousada eram um holandês e uma brasileira, que tinham três filhos, que atendiam pelos singelos nomes de Sol, Manhã e Estrela. Desse povo todo, só estava lá a Estrela, uma menininha linda de uns dez aninhos. Quem cuidava da pousada era a Adelise e uma índia pataxó de uns trezentos anos, que eu não me lembro do nome.

Os quartos nem cama tinham, eram só os colchões com mosquiteiros em cima. Deixamos lá nossas coisas e fomos almoçar no Quadrado. Bolachas com patê e Tang.

Demos um rolê pela vila e encontramos o segundo telefone da viagem. Dessa vez, encarei a fila e consegui ligar para casa. Minha mãe já estava tensa; há oito dias que não tinha notícias minhas. Aproveitamos também para comprar as nossas passagens de volta para Sampa. Claro que o ônibus não sairia dali, mas de Porto Seguro.

Sentamos de novo no Quadrado e ficamos observando as figuras raras que desfilavam por lá, com toda a sua languidez baiana. Bem ao nosso lado, tinham dois hippies, um com uma flauta e o outro com um violão, discutindo teorias musicais: “Aí, você vai entrar, mas não tão forte, é mais ou menos como um bolero sincopado”…

O jantar foi na Pousada. Miojo, óbvio.

Conhecemos o restante do pessoal que estava hospedado lá: os dois Rodrigos que estavam no mesmo quarto que a gente, e mais três meninas do Rio, a Marina, a Cláudia e a Giana. A Marina é filha do Sérgio Ricardo. Ele falou isso como se todo mundo soubesse quem era o tal, mas ficou um silêncio meio constrangedor porque ninguém sabia. Depois que contaram a história dele, eu até lembrei. O Sérgio Ricardo é aquele cantor que aloprou no meio de um daqueles festivais da Record em mil novecentos e bolinha e jogou o violão em cima da galera. Depois de um mico desses, não sei se ficava contando para todo mundo que ele era meu pai.

Vexames à parte, ela ficou contando suas aventuras com o Chico Buarque e outras figuras da MPB.

Subi para o quarto para fazer não sei o que e topei com o inseto, se é que era inseto, mais bizarro que eu já vi. Depois de porradas, facadas, tênis, panelas, travesseiros e tudo o mais que pudesse ser jogado voar por cima dele, ele morreu. A Marina disse que devia ser um caranguejo-barata. Eu acho que estava mais para caranguejo do que para barata, se bem que caranguejo não voa.

Mais à noite, saímos com as meninas e com os Rodrigos.

No dia seguinte, depois do café, fomos para praia. As meninas foram com a gente, mas voltaram cedo, porque já estavam de partida. Da praia, demos um pulo no tal do Rio Verde, que falaram que era legal, mas que eu não gostei muito.

Não lembro o quê ou se almoçamos. À tarde, ficamos sem fazer nada no Quadrado.

Jantamos na pousada e saímos com o Rodrigo mineiro (o carioca já tinha partido também). Era a noite da lua cheia e ia rolar lá em Trancoso uma rave daquelas. Aliás, não era só lá. Toda o pessoal do sul da Bahia (a Cissa aí incluída) estava aguardando a lua cheia.

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Eu, o Rodrigo mineiro, o Piloto e a Adelise

O Rodrigo nos incentivou a ir à festa. Disse que ele mesmo não ia porque já tinha ido numa outra e viu tanta coisa que chegou uma hora que ele já estava “desvendo”. Que viagem! Agradecemos o convite, mas, como bons meninos, fomos dormir cedo.

No dia seguinte, acordamos, tomamos o café (Granola com iogurte caseiro, muito bom!), acertamos nossas contas com a Adelise (reza a lenda que a índia velha saca sua borduna e corre atrás de quem não paga) e partimos também.

Saindo de Trancoso, cruzamos dois rios, o Trancoso e o da Barra, ambos a pé e com a mochila na cabeça.

Duas horas e meia de caminhada e chegamos à primeira praia movimentada. Paramos à sombra de um quiosque da Kibon abandonado e aproveitamos um pouco a praia.

Mais quarenta minutos andando e chegamos a Arraial d’Ajuda.
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Continua em: Assédio sexual

14 July 2005

A Trilha do Cabral - 7: Quase o fim do mundo

Capítulo anterior: As sílfides de Curuípe
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Andamos mais ainda e chegamos ao Rio do Frade. Passamos o rio de canoa – o cara nos levou de graça, por que lá não era um local de turistas - e chegamos num lugar muito, muito lindo. Parecia propaganda do Prestígio: o mar, a areia e os coqueiros. Quilômetros (literalmente) de coqueiros e mais coqueiros.

Havia apenas uma casa nessa praia, a do Seu Olegário, que nos deixou acampar próximos da casa dele. Além dele e da esposa, estava também na praia um casal. O homem era alemão e a mulher, brasileira e tinham vindo de Trancoso de bicicleta. Disseram que ficava a quinze quilômetros dali. Isso significava que tínhamos andado vinte quilômetros desde Caraívas e onze desde Curuípe.

Tomamos banho no rio (água doce!) e fomos montar a barraca. Deviam ser umas cinco da tarde. Raciocinamos um pouco e montamos a barraca do avesso. Dessa maneira, a parte prateada, que tinha a finalidade de não deixar o calor escapar, ficou para fora. Ficou parecendo a Priscila, mas não esquentou tanto.

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Priscila, a rainha da praia deserta

Passamos um tempão ouvindo as lorotas do Seu Olegário. Acho que ele nos deixou acampar lá para ter com quem conversar. Disse até que já ofereceram para ele não sei quantos milhões de dólares para construírem um condomínio ali na Praia do Frade, mas ele não quis, para não destruírem a paisagem.

Depois dessa, tivemos que ir jantar. E foi o melhor até então. Teve até marshmallow assado na fogueira de sobremesa!

Na manhã seguinte, antes de partimos, pegamos, com ajuda do Seu Olegário (que conhece a técnica e tem as ferramentas), um monte de côcos. Tanto que enchemos meu cantil de cinco litros só com a água deles.

E partimos da praia mais bonita da nossa viagem.

Depois da Barra do Rio do Frade, ficam as praias de Itaquena, os points de nudismo da galera.

Andamos uns cinco quilômetros até topar com a primeira pelada. E estava de moto ainda. Pensei até que fosse a Godiva do Irajá. Mas, logo atrás vinha o maridão e o filhinho, todos devidamente sem roupa e de moto. Descansamos um pouquinho e seguimos em frente.

Já próximo de Trancoso, virou uma festa; todo mundo pelado. Pelado e feio, diga-se de passagem. Paramos por ali, decentemente trajados, e ficamos fingindo que estávamos mergulhando (deu até para ver uns corais) até umas duas da tarde. Como a maré estava subindo e ia ficar cada vez mais difícil andar na praia (e depois de me convencer que definitivamente não ia passar nenhuma ninfetinha pelada), fomos para Trancoso.
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Continua em: Os ritos da lua cheia

13 July 2005

A Trilha do Cabral - 6: As sílfides de Curuípe

Capítulo anterior: O fim do mundo não é aqui mesmo
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01 de janeiro de 1996.

Acordamos e fomos para a praia. Fui dar uma corridinha, aproveitando para paquerar as meninas que passavam.

A Fabi falou que ia dar um pulo na barraca e já voltava. Eu e o Piloto ficamos lagarteando lá na praia.

Eu quase dormindo quando, de repente, ouço uns berros: “Cuidado, que o jegue vai passar em cima do homi!” Abro os olhos e o homi era eu! O jegue passou e quase pisou em mim, bandido! Pois é, acabei dormindo mesmo. E só acordei quase três da tarde. Imagine só, eu, branquinho, branquinho, deitado ao sol da Bahia, das dez da manhã às três da tarde… Quase tive uma insolação.

À noite, jantamos na padaria. Caraívas, coitada, estava em colapso. Não tinha mais água mineral, a padaria só tinha um tipo de lanche (não lembro se era o de queijo ou de presunto), os mercadinhos não tinham mais frutas. A situação só ia melhorar lá para o dia quatro ou cinco de janeiro, quando chegassem os mantimentos de Porto Seguro.

Fomos depois até a casa da Cissa para nos despedirmos dela, pois iríamos embora no dia seguinte. A Cissa ficaria ali mais um tempo, esperando pela lua cheia. Ela tem umas dessas coisas de rituais com a lua.

Cinco da matina, já estávamos em pé. A Fabi aloprou. Não agüentava mais ficar andando e carregando mochila e deciciu ir de ônibus para Porto Seguro.

Fomos com ela até o outro lado do rio, onde parava o ônibus. Esse outro lado do rio é uma balbúrdia, porque a estrada termina ali. Todo mundo que vai de carro até Caraívas, deixa ele ali. São quilômetros de fila nas laterais da estrada. Uma bagunça quando alguém resolve sair ou fazer uma manobra.

A Fabi embarcou no ônibus e eu e o Piloto voltamos para desmontar a barraca e partir.

Sem a Fabi, aí virou programa de índio de vez. Só, nós dois andando feito dois condenados, ninguém querendo falar que estava cansado.

Além do rio Caraívas, tivemos que passar por dois outros. Como eram maiorzinhos, tivemos que apelar para a molecada da canoa. Claro que não pagamos em dinheiro; eles aceitaram alguns chocolates e M&M, que a essa altura do campeonato, depois de mais de uma semana no sol da Bahia, não estavam lá muito convidativos.

De Caraívas para frente, o relevo era marcado por falésias de uns trinta metros de altura, bem próximas da praia.

A primeira praia depois de Caraívas é a do Espelho. Tinha umas poucas pessoas lá e duas mansões. Ficamos lá um tempinho e seguimos em frente.

Chegou uma hora que a falésia fechou a praia. Tivemos que pegar uma trilha de uns quarenta minutos para sairmos do outro lado.

Ali começava a Praia de Curuípe. Era bem grande e no fim havia um barzinho bem legal, com um pessoal animado. Não era para menos; tinha umas meninas lindas, lindas, de top less, na praia.

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As sílfides tentando nos demover de nossos objetivos mais elevados

Como bons janízaros, ficamos ali só um tempinho e seguimos em frente.

Aí começou a furada. Logo depois de Curuípe, havia um hotel. E com uma cerca. Terminou o hotel e começou uma fazenda, também com cerca. O problema é que essa cerca já ficava na areia. Assim não ficava uma única árvore para nós sentarmos debaixo e descansar um pouco à sombra. Certa estava a Fabi em ter ido de ônibus.

Enfim, um coqueiro deu mole para fora das cercas. O Piloto trepou nele para conseguir a nossa salvação e descobriu que não basta querer, tem que saber. Tirar côcos do pé exige uma técnica apurada, que não constava no nosso rol de habilidades. Ao custo de muito suor, o Piloto ficou pendurado quase de cabeça para baixo, dando violentas facadas nos pobres côcos. Eu não sabia de quem eu devia ter pena: se dos côcos que estavam sendo brutalmente assassinados ou do inumano esforço que o Piloto estava fazendo.

Mas não é só isso; depois de derrubados, vinha a segunda parte da epopéia: abrir os côcos com uma faquinha de meio palmo de lâmina. No fim, gastamos toda a energia que íamos recuperar com a água dos côcos.

E a fazenda era grande. Grande mesmo. Mas, como nenhum sofrimento é eterno, uma hora ela acabou. E começou outra! Pelo menos, essa não tinha cerca de arame. Tinha uma cerca viva. Nessa praia, tinham duas menininhas brincando, que fugiram correndo quando viram a gente.

Nessa hora, bateu o arrependimento de não termos parado lá em Curuípe mesmo. O barzinho, as sílfides de top less e a gente andando há duas horas, sem ter nenhuma sombra para parar. Quase que voltamos, mas já estava muito longe.
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Continua em: Quase o fim do mundo

12 July 2005

A Trilha do Cabral - 5: O fim do mundo não é aqui mesmo

Capítulo anterior: O fim do mundo ainda não é aqui
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No dia seguinte, acordamos cedinho e começamos andar. O Piloto falou que uma amiga dele, a Cissa, iria estar lá em Caraívas e que, para achar a referida, tínhamos que estar de frente para a igreja e olhar para a direita; teria uma lua desenhada na porta. O detalhe é que quando ela deu essa explicação tão esclarecedora, estavam os dois bêbados e ele não estava muito certo de que era isso mesmo.

Por volta das nove horas já estávamos em Caraívas. Desisti de encontrar o fim do mundo aqui na Bahia. Caraívas, que não deixa de ser uma vila de pescadores, como eu já disse, sem água, luz ou telefone, estava entupida de turistas.

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Caraívas

Fomos andando pela cidade, procurando a casa da Cissa. Não foi difícil encontrar a igreja, mas para encontrar a casa da Cissa já são outros quinhentos. Olhamos para direita, para esquerda, para cima, para baixo, para trás, perguntamos para o povo e nada da lua e muito menos da Cissa.

Moral baixo, saímos em busca de um lugar para ficar. A Fabi ficou sentadinha perto da igreja, cuidando das coisas, enquanto o Piloto e eu saímos. Passamos por uns três campings, todos lotados, sujos e com a galera fumando umas paradas. Sem chance. Andando pela vila, cruzamos com a Maria Mariana, a tal que fez Diário de um Adolescente, Confissões de um Adolescente ou algo parecido (não sei se é um filme ou um livro). Aliás, só sei que era a tal porque o Piloto me mostrou as sobrancelhas protuberantes dela.

Missão não cumprida, voltamos para a igreja.

Dessa vez, saíram o Piloto e a Fabi para comprar água mineral e eu fiquei ali guardando as coisas.

Saiu uma menina da casa bem onde eu estava sentado. Fiquei lembrando de como o Piloto tinha descrito a Cissa: baixinha, mas não muito; cabelos compridos claros, mas não loiros; olhos puxados, mas não orientais e com um nariz meio assim. Fiquei olhando para menina. Com uma descrição tão precisa, não tinha erro:

- Cissa?

Ela olhou!

- Oi! Você é a Cissa?

- Sou.

- Da FAU?

- É. Por quê?

- Amiga do Renato?

- Como você sabe?

Grande Marcus! Achei a Cissa sem nunca antes tê-la visto! Quando o Piloto e a Fabi voltaram, eu já estava até tomando café com a Cissa e o Robson, outro amigo do Piloto. A tal da lua era um desenhozinho fajuto, feito com uma caneta Bic, no batente da porta.

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Nós e a Cissa

A nossa idéia inicial, já que não somos bobos nem nada, era ficar na casa, junto com a Cissa. O problema era que, além dela e do Robson, estava lá também uma outra mulher, que não foi muito com a cara da gente. Também sem chance.

Conversa daqui e dali, conseguimos um quintal de um morador local para montarmos a nossa barraca. E ele tinha o mais precioso dos bens de Caraívas: uma torneira que saía água!

Nosso almoço foi na padaria da cidade. Havia três lanches diferentes no cardápio: pão com queijo, pão com presunto e pão com queijo e presunto.

Mais para o final da tarde, fomos para praia. Achamos estranho que já estava todo mundo voltando, mas tudo bem. Quando chegamos, vimos que não estava tudo bem. Todo dia, mais ou menos àquela hora, soprava um vento muito forte na praia, areia voando, uma beleza. Para não perder a viagem, ficamos lá assim mesmo.

Próximo à praia passa o rio Caraívas e a melhor praia fica do outro lado. Ali, fica uma garotada que ganha a vida levando o pessoal de um lado para o outro de canoa. Claro que fomos nadando.

Aproveitando a ventania, apareceu um coroa com uma pipa enorme, de um metro e meio mais ou menos, e começou a empiná-la. No início, ele conseguiu controlá-la, aproveitando para mostrar os músculos para as meninas que ainda se arriscavam a permanecer na praia, se achando o tal. Só que passou um tempo e a pipa começou a arrasta-lo e lá se foi o coroa embora. Como eu sempre digo, passarinho que come pedra, sabe o tamanho do olho que tem.

Mas quando todos achavam que o espetáculo havia terminado, o cidadão conseguiu controlar a pipa de novo, se jogou de barriga no mar e saiu esquiando! A pipa o levou para o outro lado do rio e ele foi-se embora para a cidade. Vou morrer e não vou ver tudo…

Voltamos, tomamos um banho de torneira e fomos jantar. Dessa vez, foi no restaurante da Dona Fia. Novamente moqueca. O negócio em Caraívas é bem informal, para não dizer outra coisa. Jantamos na varanda da casa da dona, à luz de lampião. A filha dela saiu para comprar o refrigerante na hora em que pedimos.

Quem está contando os dias desde a primeira página, sabe que estamos em 31 de dezembro, o último dia de 1995.

Pois é, voltamos para a barraca, dormimos um pouco e, lá pelas onze e meia, fomos para a praia, para a passagem do ano. O point de Caraívas é o Pachá, o barzinho mais ajeitado da praia. É onde a galera se concentrou para entrar em 1996.

Meia-noite, fogos, pulamos sete ondas, tudo como manda o figurino. Feliz ano novo!

Ficamos com um pessoal sentados em volta de uma fogueira. Havia um cara com um violão tocando as infalíveis músicas do Legião e do Rauzito. Lá pelas duas, voltamos para a barraca.
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Continua em: As sílfides de Curuípe

11 July 2005

A Trilha do Cabral - 4: O fim do mundo ainda não é aqui

Capítulo anterior: À beira de um piriri
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No dia seguinte, tomamos café e cedinho fomos para o barco, junto com o casal e com a Ana Autista. Ela não era autista de verdade, só que não falava muito, ficava no mundinho dela.

- Terra à vista!

A viagem de barco durou umas duas horas. O legal foi que vimos o Monte PascoalGoogle Earth, exatamente do jeito que Cabral deve ter visto.

A Fabi não gostou muito da viagem. Eu a vi se contorcendo e fui saber o que estava acontecendo. Ela estava louca para fazer xixi e o barco era bem simples, não tinha banheiro. Para os homens era mais fácil. Era só ir lá para trás, onde não tinha ninguém e mandar ver no mar mesmo, como eu fiz. Só tinha que tomar o cuidado de não cair ao mar com uma onda mais espevitada. Agora para as mulheres já ficava mais complicado por motivos óbvios. Ela já estava pensando em fazer ali mesmo e dizer depois que era suor.

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Eu e a Fabi no barco do capeta

Montamos o Plano B, mais audaz. Assim que o barco chegasse à praia, a Fabi sairia rapidinho do barco e daria vazão às suas águas místicas no mar. Eu ficaria encarregado de levar a mochila e as outras tralhas dela.

Plano pronto, era só esperar a chegada. De longe víamos o farol da Ponta do CorumbauGoogle Earth, mas o desgraçado nunca chegava. Olhei para cara da Fabi e achei que ela ia por em prática o primeiro plano mesmo. E haja suor!

Mas ela agüentou firme e nós chegamos à praia. O barco nem tinha parado ainda e lá estava a Fabi se lançando ao mar. O Belzebu não entendeu nada. Segundo depoimentos da própria, ela já estava desaguando antes mesmo de cair na água.

A Ponta do Corumbau era para ser outra praia quase que deserta. Mas tinha, ora vejam só!, até um hotel cinco estrelas.

De todo o trajeto, esse era o único local assinalado como um bom ponto de mergulho, cheio de recifes e com água limpinha. Não foi isso que vimos. Ficamos lá, lagarteando na praia, até umas quatro da tarde e então começamos a andar novamente.

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Dessa feita, a Fabi até que foi bem. Afinal tínhamos descansado por quase dois dias e só começamos a andar quando o sol já tinha baixado bastante.

Caraívas ficava a apenas quinze quilômetros dali, dava para chegar nesse mesmo dia. Mas achamos melhor dormir na praia mesmo. Afinal, Caraívas era definitivamente o fim do mundo, não tinha telefone, luz elétrica ou água encanada. Chegar lá às altas horas da noite não iria dar muito certo.

Passamos pela entrada da reserva dos índios Pataxó (daqueles que queimaram um em Brasília), andamos mais um pouco e montamos a nossa barraca.

Fomos andando e contando histórias de terror. No final, nosso acampamento, ficou bem camuflado no meio do mato, nós morrendo de medo de algum Pataxó ficar tentado a comer a Fabi e fazer o Piloto e eu de escravos ou vice-versa. Que idéia ridícula! De onde estávamos, já dava para distinguir mais ou menos onde ficava Caraívas. Não era longe.
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Continua em: O fim do mundo não é aqui mesmo

10 July 2005

A Trilha do Cabral - 3: À beira de um piriri

Capítulo anterior: A Trilha do Cabral 2
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Mas o horizonte é longe.

Fomos andando em direção àquele ponto de luz que não chegava nunca. Enquanto andávamos, ficávamos imaginando como devia ser Cumuruxatiba. Essa era outra cidade de que também nunca tínhamos ouvido falar. De onde estávamos, só víamos uma luzinha fraca. Ficamos pensando que aquela devia ser a única luz da cidade e que íamos chegar num fim de mundo qualquer, sem lugar para comer ou dormir.

Depois de muito sofrimento, chegamos a Cumuruxatiba. Eram oito horas da noite e havíamos andado praticamente trinta quilômetros desde Prado. Se eu estava cansado, ficava imaginando como a Fabi estava se sentindo. Mas tudo tem seu lado positivo. Cumuruxatiba não é o fim do mundo. Quando estávamos na praia, víamos só uma luz porque existe um morro na frente. Depois que chegamos, vimos que a cidade tem ruas iluminadas, bares, restaurantes, pousadas e todas as outras coisas que um cristão merece para descansar.

Fiquei com a Fabi ali na entrada da cidade e o Piloto foi procurar um lugar para dormirmos. E não é que tinha até um Albergue da Juventude!

Fomos direto para lá. A mãe do Albergue foi muito legal conosco. Só a Fabi que tinha a carteirinha de alberguista; o Piloto e eu já tínhamos desistido dos Albergues. A dona quebrou o nosso galho e nos deixou ficar com o preço reduzido, mesmo sem carteirinha. E, como tinha pouca gente, ficamos todos juntos no mesmo quarto.

Tomamos um banho de verdade (eu já estava todo ardido das queimaduras de sol), comemos umas latinhas de feijoada e fomos dormir.

No dia seguinte, depois de uma revigorante noite de sono e do excelente café da manhã do Albergue, fomos para a praia. O cartão postal de Cumuruxatiba é um velho píer, caindo aos pedaços. Ficamos um tempo por lá. A praia não é das mais bonitas, mas a cidade tem o seu charme. Tanto é verdade, que estava entupida de gente.

Resolvemos ir para a Ponta do Corumbau, que era o nosso próximo ponto de referência, de barco. Afinal, eram cinqüenta e quatro quilômetros de praias desertas, sem nenhum atrativo especial, a não ser a própria praia.

Saímos pela cidade procurando um barqueiro que nos levasse até lá. Achamos três, conversamos, enrolamos e combinamos com um deles. Ele ficou de passar à noite no Albergue para acertarmos os detalhes. Mas tinha um problema, que podia ser grave ou não, dependendo do grau de religiosidade de cada um: o barqueiro era feio como o demônio. O Piloto disse, após uma análise criteriosa do formato dos pés dele, que podia ser o propriamente dito.

Voltamos, almoçamos uma maçaroca de Miojo e passamos a tarde no Albergue, dormindo e conhecendo o restante do pessoal que estava lá.

À noite, o protótipo do Belzebu apareceu no Albergue e combinamos a hora da saída. Para dar uma aliviada no preço, que eu não lembro qual foi, convencemos mais um casal e a Ana Autista a irem conosco.

Saímos para jantar e tentar ligar para casa. O posto telefônico de Cumuru é outra coisa pitoresca. A cidade tem poucos telefones que, durante praticamente todo o ano, dão conta do recado. O problema é quando chegam os turistas e todos eles querem contar suas aventuras pelo telefone. Fica aquele fudevu de caçarola. Não contente com isso, esse único telefone também recebe chamadas e a telefonista anota os recados para cidade inteira. Não é de se espantar que eu não conseguisse ligar.

Fomos jantar num restaurante bonitinho, o Isabel - que depois ficamos sabendo que era o mais caro da cidade. Em terra de sapos, de cócoras como eles. Resolvemos pedir uma moqueca. Na indecisão em pedir uma de dendê ou de camarão ou de qualquer outra coisa, pedimos a mista. Aliás, íamos pedir duas. Como o prato era para duas pessoas e estávamos com fome, achamos que daríamos conta das duas. O garçom do restaurante disse que era muito. Teimamos e ele disse que faria uma e meia e, se faltasse, ele traria mais. Pareceu justo.

A dita-cuja demorou e a fome aumentou. Mas quando chegou, vimos que podíamos estar com toda a fome do mundo que ainda não comeríamos tudo. Era um caldeirão de ferro pantagruélico, daqueles de bruxa, e a moqueca vinha borbulhando lá dentro, como se estivesse viva. Quando pusemos na boca então… Era ardida de sair lágrimas dos olhos.

Como a gente quebra, mas não verga, comemos tudinho, não deixamos nada. E quase que não conseguimos levantar das cadeiras depois. A Fabi disse que estava à beira de um piriri.

Voltamos correndo para o Albergue e dormimos o sono dos justos.
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Continua em: O fim do mundo ainda não é aqui

8 July 2005

A Trilha do Cabral - 2

Capítulo anterior: A Trilha do Cabral 1
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Quando decidimos que iríamos fazer essa viagem, várias pessoas falaram que vinham. Só que a única que realmente encarou o desafio foi a Fabi. O problema é que ela nunca fez algo semelhante. E nunca mais vai fazer novamente, coitada… Andar feito uma mula, com uma mochila nas costas não é para qualquer um, principalmente se a pessoa tem um pouco de inteligência.

Assim, fomos seguindo pelas praias desertas (os turistas já tinham ficado bem para trás) do sul da Bahia.

Por volta das três e meia do tarde, chegamos à Praia da Paixão. Estávamos a uns dez quilômetros do ponto de partida. Paramos num bar para dar uma relaxada e fomos ficando. Tomamos um coco gelado e, como não tínhamos almoçado, fizemos nosso jantar bem cedo, por volta das cinco. O pessoal do bar era bem receptivo e o Piloto, aliando a sua característica cara-de-pau à boa vontade deles, já conseguiu o fogão, a água, as panelas e tudo o que eles tinham na cozinha. Jantamos arroz, strogonoff e água de coco.

Para compensar toda essa boa vontade do povo baiano, fomos intimados a jogar um beach soccer com eles. Não achei a idéia lá muito atraente. O Piloto e eu - a Fabi escapou dessa -, que além da cara, somos pernas-de-pau também, depois de andarmos com as mochilas naquele sol desgraçado e fazermos um jantar nababesco, jogando futebol? Mas, no final das contas, até que foi legal. Era só marra daqueles pescadores pezudos. Apanhei bastante, mas até marquei um gol. Falando em mochilas, antes de sair de casa, pesei a minha. Trinta e sete quilos! Um absurdo! Dava para levar uma pessoa ali dentro.

Depois do futebol e de um banho rápido e salgado no mar, resolvemos ficar por ali mesmo. Os baianos nos mostraram o melhor lugar para montarmos a nossa barraca.

Primeira noite na Bahia. A barraca da Ferrino, originalmente planejada para duas pessoas, não é ruim para três (ou pelo menos três pequenos, como nós). Viramos de um lado para o outro até acharmos uma posição boa. O bom de dormir na praia é que o chão é macio e não tem pedras.

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Acampando na Praia da Paixão

No dia seguinte, acordamos cedo, como todo mundo que acampa. Descobri um problema na barraca: uma barraca italiana não se adapta bem ao clima baiano. Às sete da manhã, ela já está um forno e temos que nos levantar.

Tomamos café e um banhozinho rápido numa nascente que encontramos na praia, a uns trezentos metros dali.

Por volta das dez horas da manhã, chegamos à praia do Tororão. Essa praia é teoricamente deserta, mas tem um acesso por estrada. Quando chegamos à dita-cuja, estava cheia de turistas. Era um bando de uma excursão, daquelas com uma guia sempre animada. Falamos um pouco com eles sobre a nossa aventura e seguimos adiante.

Paramos para almoçar às duas da tarde. Comemos bolachas, uma lata daquelas salsichas pequenininhas - “uns amores de salsicha”, segundo a Fabi -, uns nacos de salame e tang de pêssego. Nessa parada, apesar de não prometer nada, entrei na água com o snorkel de mergulho. Já estava cansado de carregá-lo na mochila e não usar. Serviu só para engolir água salgada.

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Nosso local de almoço

Continuamos a andar. Passamos por uma canoa, com o coincidente nome de Fabiana. Passamos também por diversas bicas d’água e córregos. Isso foi bom porque não precisamos ficar carregando tanta água. A parte ruim é que se não quiséssemos molhar os calçados, tínhamos que parar e tirá-los a cada duzentos metros.

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As duas Fabianas

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Passando por uma falésia

A Fabi, coitada, foi ficando acabada. Andávamos, andávamos e nada de Cumuruxatiba aparecer. Foi escurecendo e nada. Comecei a ficar preocupado de verdade com a situação da Fabi. Ela não estava nada bem. Pensamos em parar por ali mesmo e seguir no dia seguinte, mas acabamos desistindo da idéia; seria melhor andar até mais tarde e chegarmos a Cumuruxatiba. Isso se a Fabi não morresse. Peguei a mochila dela e continuamos em frente.

Foi escurecendo e achei que íamos chegar ao fim do mundo, quando, de repente e não mais que de repente, surge uma luz no horizonte.
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Continua em: À beira de um piriri

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