A Trilha do Cabral - 11: Quebrando as regras
Capítulo anterior: Porto Seguro
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Nessa noite foi o nosso dia de fazer o programa. Levamos as meninas para o centro histórico, subimos uma enorme escadaria e ficamos na mureta da igreja mais alta para ver a lua cheia nascer e falar para elas coisas da terra, do céu e do mar.
Voltamos para o Albergue e fomos fazer a gororoba de despedida; elas iriam embora no dia seguinte.
Aí começaram os problemas que acabam com a noite de qualquer um. Nossa idéia era fazer o jantar e comer na beira piscina do Albergue. Só que a piscina fechava as oito da noite. Fomos falar com a Telma, a mãe do Albergue. Ela não deixou. Não que quiséssemos fazer uma suruba no Albergue, mas não podíamos entrar no andar das meninas nem para chamá-las para sair.
Voltando ao problema do jantar na beira da piscina, argumentamos filosoficamente, enfocando a nossa liberdade enquanto seres humanos e a total falta de propósito de se fechar a piscina a partir das oito da noite. Mas não deu certo.
Who dares, wins. Resolvemos fazer o jantar no nosso quarto. Porém surgiram outros dois problemas: como levar a comida para o quarto (era proibido comer nos quartos) e como levar as meninas para lá. O primeiro nós resolvemos, o segundo, deixamos elas se virarem um pouco também.
Usar a precária cozinha do Albergue foi a única concessão que conseguimos da Telma. Havia uma pequena janela que dava num banheiro. Eu fiquei com as panelas no fogão e o Piloto, fingindo uma VRC (vontade repentina de cagar), entrou no banheiro, com mochila e tudo. Eu, mais do que esperto, passei as panelas para ele pela janelinha e ele as levou para o quarto. O problema é que na mochila não cabiam todas e ele teve que voltar ao banheiro umas três vezes em dez minutos, sempre com a mochila. Simples e discreto.
Passadas todas as panelas, saí da cozinha com a minha rematada cara-de-pau e fui para o quarto também. Arrumamos as coisas e interfonamos para as gurias. O cardápio da noite constava de arroz, strogonoff de frango, salada e Tang. Para dar um ar mais rústico ao evento, o jantar era no chão mesmo forrado com uma manta de velame de pára-quedas, iluminado com um lampiãozinho de vela de citronela e o suco estava no cantil prateado de cinco litros. E elas gostaram ainda.

O jantar secreto no Albergue
Depois do jantar, ainda demos uma saidinha. Fomos ao bar do Cabral, um bar de portugueses, como sugere o nome.
No dia seguinte, logo cedo, partia o ônibus das meninas. Elas iam ainda para Cumuruxatiba. Levamos a Denise e a Cris até a Rodoviária e voltamos para o Albergue. Nosso ônibus era só à tarde. Ficamos lá naquela situação pastosa, sem nada para fazer até a hora de partirmos.
A volta de vinte e quatro horas de ônibus nem merece ser contada.
Assim terminava o maior programa de índio que eu fiz até agora.
Valeu a pena?
Tudo vale a pena,
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador,
Tem que passar além da dor.
Deus, ao mar, o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle espelhou o céu.
F.P.
F I M












