e-Lidiofin

30 August 2005

Escrúpulos Precários

Filed under: Diversos

Encontrei outro dia um blog (ou flog?) que é atualizado todos os dias, só com fotos de qualidade e títulos bem-humorados. Vale a pena visitar.

Eu ia postar um comentário no blog dele, mas estou postando aqui para ver se esse negócio de trackback realmente funciona.

Ah! O link é Escrúpulos Precários, escrito pelo Iraldo.

28 August 2005

Desencargo de consciência

Filed under: Diversos

Um monte de gente me escreve querendo informações sobre as coisas que conto aqui no meu blog. A idéia do Lidiofin é apenas contar histórias e não ensinar a fazer nada.

Se quiserem fazer as mesmas coisas que eu:

1 - Prestem o concurso para a Academia Militar das Agulhas Negras. Escolham a Infantaria e passem o resto da vida ganhando pouco, mas se divertindo muito. Quem faz o que gosta está sempre de férias. Se quiserem melhorar mais ainda, façam, depois de formados, o curso de piloto.

2 - Quanto as viagens, muitas das coisas que fiz aqui eram perigosas ou proibidas - quando eu era mais novo, não percebia as coisas dessa maneira. Se quiserem fazer o mesmo, não ponham a culpa em mim. Se fizerem e voltarem vivos, ponham um comentário aqui no meu blog.

See you, space cowboy.

As abelhas

Filed under: Diversos, Militar

O causo ocorreu no início de setembro de 1994.

Eu ia contar toda a história da nossa Operação Lagoa Azul, mas vi que não valeria a pena. Ela não tem nada de diferente das outras operações, não fosse por alguns detalhes. O primeiro deles é que foi o principal manda-brasa do ano. Manda-brasa é um tipo de operação inopinada, que não ficamos sabendo com antecedência. O segundo é que os objetivos da missão eram em Angra dos Reis, bem longe da Academia. Para chegar lá, fomos até Bananal/SP em viaturas e, a partir dali, seguimos a pé, pela conhecida Trilha do Ouro, até Angra.

Foram vinte e um quilômetros de subida. O término da subida foi na Fazenda Conceição, no topo da Serra da Bocaina, onde passamos a noite.

A história que vou contar deu-se no dia seguinte.

A descida da serra é um pouco mais curta que a subida; devem ser uns quinze quilômetros. Desceu conosco um cachorro da fazenda. Claro que, na lógica canina dele, aquilo era apenas mais um passeio. Um pouco longo, mas logo estaríamos voltando para a fazenda, levando-o de volta. Depois de cumprirmos as missões, ele nos viu embarcando nas viaturas e se deu conta do erro que havia cometido.

Como o dono da fazenda é um cara que sempre colabora com a gente e nos deixa usar as instalações dele – e auxiliado pela cara de triste do cachorro -, o comandante do curso decidiu que levaríamos o cachorro de volta.

Embarcamos o cachorro e, na falta de um lugar melhor, o amarramos com um cabo solteiro ao bipé da metralhadora MAG. As viaturas partiram e subimos a serra. Os outros pelotões voltaram para a Academia, enquanto o meu seguiu para Bananal.

A fazenda era longe, mesmo de caminhão. Passou um tempo, acabou o assunto da conversa e todo mundo começou a procurar uma posição para dormir.

A viatura parou. Era o motorista, que havia dito ao tenente que precisava satisfazer suas necessidades fisiológicas. Mal ele desembarcou, o tenente começou a espernear e se bater, como um louco.

“Xi!… O tenente endoidou!” - Como víamos tantas coisas bizarras todos os dias, esse foi o único comentário que aconteceu, não foi dada importância ao fato.

Poucos segundos depois, elas entraram na carroceria também. Dezenas de milhares de abelhas, que não estavam para brincadeira.

Começou o fudevu de caçarola. O pessoal que estava na frente sendo picado, gritando e querendo sair dali. O pessoal do fundo, onde as abelhas não haviam chegado ainda, falando para todos ficarem parados que elas não picariam. No meio de tudo isso, dois colegas e o cachorro, que estavam dormindo no piso, sendo pisoteados.

O tenente começou a gritar pelo motorista. O Rodgers pulou do caminhão e foi procurar o motorista também. Mal colocou os pés no chão, uma abelha entrou no seu capacete. Ele jogou o capacete longe e saiu correndo desesperado, levando consigo uma pequena parte do enxame.

Nisso, apareceu o motorista. Entrou no caminhão, deu a partida e arrancou, saindo dali o mais depressa possível. Tudo e todos que estavam na carroceria foram arremessados para o fundo, incluindo pessoas, armas, mochilas e o cachorro amarrado à metralhadora.

As abelhas da boléia começaram a picar o motorista também e ele freou bruscamente. Todos que tinham caído no fundo do caminhão e agora estavam se xingando (ou latindo) e xingando o motorista, voltaram rolando para a frente.

Assim, o caminhão saiu do meio do enxame; o tenente e o motorista desembarcaram.

Nessa momento, a situação era a seguinte: as poucas abelhas que restavam no caminhão estavam sendo sistematicamente eliminadas com porradas certeiras e odiosas de capacetes, marmitas e qualquer outro objeto que servisse para bater. Enquanto isso, o tenente, o Rodgers e o motorista realizavam, na estrada, a sua dança macabra para escapar do enxame.

O motorista sumiu no meio do mato e o Rodgers se livrou das abelhas.

Restou o tenente. Ele foi andando na direção do meu colega e dizendo: “Calma, Rodgers. Um ajuda o outro”. E o Rodgers fugindo dele: “Não senhor, tenente! O senhor está com mais!”

Nessa situação triste terminou o nosso principal manda-brasa do ano.

Algum tempo depois, chegamos à fazenda e deixamos o cachorro, um pouco picado, mas vivo. A filha do dono da fazenda era linda e rendeu assunto para o resto da viagem.

Eu acabei deitando debaixo do banco e só acordei na AMAN. Sem uma única picada.

26 August 2005

Google Earth

Filed under: Diversos

Enquanto não publico novas histórias, fico enrolando vocês com outras besteiras. A mais recente delas é o link para o Google Earth, que vou colocar nos locais citados nas histórias.

Para visualizar o local, basta clique no ícone Google Earth após o nome de uma localidade. Este ícone irá baixar um arquivo .kmz, que necessita do Google Earth para ser aberto.

O primeiro link que coloquei aqui no Lidiofin é o da Praia do Bonete. Ele está no final deste post.

Boa viagem.

23 August 2005

Cavernas 9 - A Fuga do Jurassic Park

Capítulo anterior: A Caverna da Água Suja de Cima
Tomamos banho (estávamos muito, muito, muito sujos) e começamos a preparar o jantar. Fizemos toda a comida que havia sobrado e ficamos nos refestelando até depois das dez horas.

Lavamos nossas coisas e voltamos para a barraca.

Eu não havia dito ainda, mas o zíper da barraca estava engripado. Ficava entrando um ventinho o tempo todo. Só que isso não era problema, pois estava muito quente. O problema eram os mosquitos. Passamos repelente no zíper e deixamos o tubo aberto ali ao lado da porta. Funcionou!

Deitamos. Só que era a última noite e ninguém estava muito a fim de dormir. Acendemos a lanterna e começamos a jogar baralho. Todos os jogos que sabíamos: truco, pôquer, mau-mau e outros que fomos inventando na hora. Cansamos de jogar e começamos a maior bagunça dentro da barraca. Só sossegamos quando o Piloto torceu o pescoço, jogou repelente na minha cara e a Tati levou uma dedada no olho.

Duas e meia, com os três devidamente machucados, dormimos.

Alvorada às quatro, tomamos o desjejum, arrumamos as nossas coisas e desmontamos o iglu.
Pouco depois das cinco, começamos a subir em direção à estrada. Apesar de não ter comida – com exceção de alguns biscoitos separados para a viagem -, as roupas molhadas não deixavam as mochilas ficarem mais leves.

Como saímos muito cedo, não deu nem para agradecer a quem que que seja que tenha recolhido as nossas roupas no dia anterior.

Meia hora de sofrimento, subindo a trilha. A Tati disse que parecia a “fuga do Jurassic Park”. Realmente, acho que um braquiossauro não iria destoar muito naquele cenário. Um vale muito fundo, cheio de samambaias enormes, cavernas e uma bruma se formando no fundo e subindo devagar.

Passamos pela guarita, devolvemos a plaquinha com o número da barraca para o funcionário de plantão e fomos para a parada do ônibus, cem metros à frente.

O ônibus passou pouco depois das seis. Se perdêssemos esse, o próximo seria às sete da noite. Ao chegar em Iporanga, tivemos que trocar de ônibus para seguir para Jacupiranga. Chegamos bem na hora. Quinze minutos depois, estávamos embarcando para São Paulo.

Viemos dormindo a viagem toda. De quando em quando, alguém meio que acordava para comer os biscoitos.

Chegamos ao Tietê, totalmente entupido de gente. Ficamos ainda um bom tempo procurando a mãe da Tati. Ela não encontrou e resolveu pegar um ônibus para casa.

Fizemos o mesmo e, por volta das três da tarde, estávamos em Santo André.

F I M

22 August 2005

O salto

Filed under: Diversos, Militar

Vou aproveitar meu aniversário e contar uma história que já contei pelo menos umas mil vezes e pela qual sou conhecido até hoje.

Tudo aconteceu na manhã de três de maio de mil novecentos e noventa e quatro. Mas vou explicar do começo.

Nas provas de natação do terceiro e quarto anos da Academia Militar das Agulhas NegrasGoogle Earth, há o salto da plataforma. Funciona da seguinte maneira: a prova em si vale nove pontos. Mas para realizar a prova, é necessário realizar o salto: ou salta ou tira zero. Não é um salto ornamental ou acrobático; temos simplesmente que ter a coragem de se jogar lá de cima. Com salto de cinco metros de altura, você tem o direito de fazer a prova, sem ganhar ponto nenhum. Saltando dos sete metros e meio, ganha meio ponto. E saltando dos dez metros ganha um ponto.

Podemos dividir o pessoal em três grandes grupos. O primeiro é o dos que saltam sem medo, seja por conhecer a técnica de salto, seja por demência ou por qualquer outro motivo. O segundo é daqueles que não saltam de jeito nenhum e fazem os tenentes instrutores gastarem toda a sua psicologia para convencê-los. O terceiro é o dos “normais”: os que têm medo, mas saltam. Esse terceiro grupo é bem diverso, variando desde os que quase se encaixam no primeiro grupo até os que estão quase no segundo. Esses que estão quase no segundo são os que nos proporcionam os momentos de diversão na piscina: caem gritando, batendo asas, fazendo as mais estranhas performances enquanto despencam rumo à água.

Eu era um desses que me encaixava quase no segundo, mas saltava sem dar grandes espetáculos. Morria de medo mas, como não era o melhor dos nadadores, me obrigava a saltar do topo da plataforma para ganhar o ponto.

A partir do segundo ano da Academia, todos os dias em que há natação, há também o salto da plataforma.

Não foi diferente nesse dia já citado. Eu sempre ficava entre os últimos da fila, talvez esperando que algo maravilhoso ocorresse. A plataforma poderia desmoronar ou o mundo acabar e eu não teria que saltar!

A minha vez foi chegando e vi que, novamente, não teria escapatória. O tenente que estava no alto da plataforma era um precursor pára-quedista e fazia todo um teatro, como se estivéssemos saltando de uma aeronave.

Já no alto dá plataforma, apenas dois na minha frente, dava para sentir o coração saltando, as pernas tremendo, a piscina parecendo tão longe lá embaixo. O primeiro saltou.

Está chegando a minha hora. Tudo bem. O da frente vai saltar, vou à frente, olho para baixo, espero ele sair da água e salto. Um segundo e meio depois, eu bato na água. Não vou cair alinhado, vai doer, mas não muito. É sempre assim. Já fiz isso dezenas de vezes. Vamos lá, não é tão ruim.

Mas o meu colega da frente empacou. O tenente botou ele de lado e gritou: “O próximo! Levantar! Enganchar! Verificar equipamento! Pronto?” Eu estava pronto antes do outro não saltar. Porém agora não estava mais. O fato de o colega da frente não ter saltado me lembrou como esse negócio de ficar se jogando de lugares altos não é saudável.

Mas saltei assim mesmo. Fechei os olhos e…

… entrei a piscina retinho. Sem dor! Ainda debaixo d’água, eu comemorava. Acabou o mistério, aprendi a saltar! Não sei porque tem gente que tem medo disso. É uma coisa tão simples, tão fácil. Tão legal!

Pus a cabeça para fora e o capitão, com a prancheta na mão, me chamou:

“Piffer! Você caiu muito devagar; salte de novo!”

Caí devagar? Como é isso? Mas tudo bem, agora eu sei saltar; posso ficar o dia todo saltando, não tenho mais medo.

Até eu sair da piscina, dar a volta e subir toda a escada, todos já haviam saltado ou descido para a plataforma de cinco metros, para a sessão de psicologia com os tenentes.

Apenas um instrutor permanecia nos dez metros, me aguardando. Mal minha cabeça apareceu no alto da escada, ele disse: “Vai, Piffer. Saí correndo daí!”. Tomei impulso e parti, com minha recém-adquirida e destrambelhada auto-confiança.

Quando me vi no ar, percebi que o buraco era mais embaixo. Dez metros abaixo, para ser preciso. Percebi que eu continuava com o pavor de sempre. Fechei os olhos e esperei a água chegar.

Mas a água não chegava. O tempo passava, os pensamentos passando pela minha cabeça e nada da água chegar.

Onde está a água? Estou voando? Não é possível, eu não vôo… Que coisa estranha… Será que devo abrir os olhos para ver o que aconteceu? Não sei… Vou abrir.

Abro e vejo a água a um centímetro do meu nariz. Caí perfeitamente na horizontal, não afundei um palmo sequer. Acho que seria a mesma coisa se eu tivesse saltado para o concreto da borda da piscina. Acordei com uma bóia acertando a minha cabeça e um monte de gente pulando n’água e gritando: “O Piffer morreu! O Piffer morreu!”

Nesse dia eu descobri que a blusa de combate tem sete botões (todos eles sumiram). A minha calça rasgou de fora a fora, ficando como se fosse uma calça de odalisca, uns trapos seguros apenas pelo cinto.

Sem contar o uniforme, um sangramento no nariz e nos lábios e a barriga e as pernas vermelhas, nada de grave aconteceu. Não fiquei muito pior do que já era antes.

21 August 2005

Cavernas 8 - A Caverna da Água Suja de Cima

Capítulo anterior: A Caverna da Água Suja
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Essa caverna tem esse nome porque fica exatamente sobre a outra, inclusive se comunicando com esta. Tem o piso bastante irregular, não dá para saber direito onde começa, para onde vai e nem tem um caminho “lógico” a ser percorrido, como a outras cavernas.

Entramos primeiro pela entrada menor e mais elevada. Formava uma grutinha pequena e que não ia a lugar algum. Por incrível que pareça num passeio em cavernas, foi lá vimos o nosso único morcego em toda a semana.

Saímos dali e fomos para a entrada principal. Essa sim dava num salão bem grande, quase como o do Morro Preto e com dezenas de caminhos a seguir.

O Piloto foi na frente. Escorregou, caiu e continuou escorregando na direção do nada. A Tati gritou para eu ir ajudá-lo, mas achei que o negócio não era grave a ponto de fazer eu tirar a mochila, apanhar a corda e ir até lá onde o Piloto estava. Ele é bem mais esperto que eu e ia estar de volta antes que eu me desse ao trabalho de fazer alguma coisa.

Mas, por insistência da menina, fui travar conhecimento com a situação: o Piloto (retiro o que eu disse no parágrafo anterior) pisou numa faixa de dois metros de largura por onde havia escoado a água da chuva. As pedras, que já são escorregadias por si só, estavam ali com um atrito bem próximo do zero e o Piloto tinha parado de descer por pura vontade divina.

Joguei uma ponta da corda para ele, fiz meu ato heróico do dia e continuamos adentrando a caverna.
Fomos primeiro para os caminhos da esquerda. Tinha quatro passagenzinhas que davam todas no mesmo lugar. Nesse lugar tinha uma estalagmite muito legal. Ela formava uma “mesa”, com um metro de diâmetro. Sobre a mesa, havia várias formações de uns cinco centímetros de altura, que pareciam esculpidas à mão: uma coruja, um velhinho barbudo, uma santa, um gatinho coçando à cabeça. Claro que tem que ter um juízo meio deteriorado para perceber todas essas coisas.

Voltamos para o salão principal e seguimos por um caminho mais à esquerda ainda. Não dava em lugar nenhum.

Fomos pelo caminho da direita. Esse desembocava em um outro salão. Só que não dava para percorrer o salão. Ele era todo tomado por um lago. Descemos pelas pedras até a margem do lago e…

Não era lago coisíssima nenhuma, era a comunicação com a gruta de baixo. Um buraco de cinqüenta metros de diâmetro e que encontrava o chão uns vinte e cinco metros abaixo. Claro que não podia ser um lago. É só raciocinar um pouco e lembrar que estávamos bem acima do nível do rio, na Água Suja de Cima. Mas as ilusões de ótica continuavam nos enganando.

Ficamos um tempo ali e resolvemos voltar para o acampamento. Sair da caverna é tão chato quanto entrar. Tudo escorrega e temos que ter cuidado o tempo todo.

A chuva já havia parado, mas o rio subiu bastante e ficou todo barrento. Mesmo assim, não foi difícil atravessar.

Quando voltávamos pela trilha, lembramos que nossa roupa havia ficado no varal, ao lado do ambulatório. Com essa chuva, teríamos que lavar tudo de novo…

Fomos direto para lá. Nada da roupa. E como já passava das cinco da tarde, não havia mais nenhum funcionário no parque.

Voltamos para a barraca tristes e (ora, vejam só!) toda a nossa roupa estava lá dentro, sequinha e dobrada! Esse mundo ainda tem jeito…
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Continua em: A Fuga do Jurassic Park

20 August 2005

Cavernas 7 - A Caverna da Água Suja

Capítulo anterior: As cachoeiras
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No dia seguinte, acordamos às sete horas e bateu uma preguiça – plenamente justificável em plenas férias. Dormimos de novo e só levantamos depois das nove e meia.

Tomamos o café (capuccino, biscoitos, patê, leite condensado, pão… comida era o que não faltava) e, transferimos o nosso varal para umas árvores ao lado do ambulatório, onde tinha sol o dia todo.

Deviam ser mais de onze horas quando saímos. Íamos visitar as cavernas que ficam ao longo da trilha que dá nas cachoeiras. Além da Caverna da Água Suja, cuja entrada fica ao lado do caminho, tínhamos visto outras duas bifurcações: uma ia desembocar na Caverna da Água Suja de Cima e a outra devia chegar à Caverna da Catedral. Fomos para esta primeiro, por ser a mais distante.

Começamos a subir a trilha. E a trilha foi se fechando. Nós subindo e a trilha fechando mais e mais. Chegou um momento em que eu me enrosquei tanto nos cipós e espinhos que não conseguia mais ir para frente ou para trás. O Piloto me ajudou e consegui me soltar. Resolvemos retornar, não valia a pena continuar por ali.

Descemos de volta para a trilha principal, sob os protestos veementes da Tati, que queria seguir em frente de qualquer maneira.

Voltamos, andando pelo leito do Betary. Chegamos ao ribeirão da Água Suja e dali seguimos para a entrada da caverna que tem o mesmo nome.

Havia mais quatro pessoas se preparando para entrar. Eram dois brasileiros e duas meninas estrangeiras. Deixamos a nossa mochila escondida atrás de algumas pedras (a caverna é cheia d’água, a mochila não estava impermeabilizada, resolvemos não correr o risco) e seguimos em frente.

A caverna é mais bonita do que eu pensava, com água até a cintura o tempo todo. Voltei correndo para buscar a mochila e as máquinas fotográficas. A partir daí, fomos andando com os outros quatro, aproveitando que eles estavam bem mais equipados que nós.

Os espeleotemas dessa caverna são diferentes, pois a correnteza do rio ajuda a moldá-los.
Depois de andar bastante, demos uma parada perto de uma escada de travertinos para tirar algumas fotos. Os quatro aproveitaram e fugiram da gente. Nos vimos sozinhos, com a minha lanterna com a pilha fraca e a da Tati já apagando.

Seguimos em frente.

Chegamos a um pequeno desnível que formava uma corredeirazinha no rio. Lá ficava a primeira bifurcação da caverna: um caminho continuava seguindo o rio e o outro subia para a esquerda.

Resolvemos sair um pouco da água. Fomos subindo pelas pedras e quando chegamos ao alto – trinta metros acima do rio e a uns dez metros do teto da caverna -, vimos que não chegava a lugar algum.

Descemos pelo outro lado e chegamos novamente ao rio. Começamos a voltar para a entrada da caverna. Sair da Água Suja não tem a mínima dificuldade, é só seguir correnteza.

Com pouca luz, o cenário ficou bem diferente, uma coisa meio Alien. A água entra nos buracos das rochas e e faz um “Burp! Glub!” estranho. Deve ser um péssimo lugar para estar perdido e sozinho.
Viemos andando bem devagar. Com o campo de visão restrito ao foco da lanterna, não queríamos escorregar ou dar com a testa em alguma estalactite.

Chegamos à saída. Chovia a cântaros.

Sentamos numa pedra e comemos os biscoitos recheados que havíamos levado, aguardando a boa vontade de São Pedro. Como o tempo não melhorou, nos pusemos a andar. Retomamos a trilha e subimos pela bifurcação que seguia para a Água Suja de Cima.
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Continua em: A Caverna da Água Suja de Cima

16 August 2005

Finalmente!

Filed under: Diversos

Todos os posts que interessavam já estão aqui no endereço do Blogsome. Faltam alguns comentários, mas pretendo terminar em pouco tempo, talvez hoje ainda. Ali ao lado, tem uma categoria chamada índice. Clique ali e será levado ao primeiro capítulo de cada história. É uma solução melhor, IMHO, do que fazer um tópico como índice.

See you, space cowboy.

Cavernas 6 - As cachoeiras

Capítulo anterior: A Gruta do Couto
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Voltamos para o acampamento por aquela trilha e almoçamos. Deviam ser duas da tarde.

Às três horas, iniciamos a trilha do vale das cavernas. A trilha segue o tempo todo junto do rio Betary, cruzando-o quatro vezes.

Pouco depois de termos passado pela entrada da Caverna da Água Suja, começou a chover. Ficamos parados na frente da caverna, aguardando o término da chuva. Vimos umas manchinhas de céu azul entre as nuvens e resolvemos seguir em frente. A chuva terminou uns quarenta minutos depois.

Pouco antes das cinco, chegamos às cachoeiras, no final da trilha. Ambas têm mais ou menos a mesma altura, uns trinta metros. A primeira é a do Wandir, com uma queda única e uma lagoazinha embaixo. A outra é a das Andorinhas e fica duzentos metros mais à frente. Ela é cheia de pedras. São essas pedras que diminuem a força da água e permite que você entre debaixo dela.

Mas se for fácil, não tem graça. O único modo de chegar até essa cachoeira é pelo rio que ela forma e que deságua no Betary. A água estava um gelo e tivemos que ir nadando contra a correnteza. Graças à chuva, a cachoeira estava com um fluxo bem acima do normal, o que não ajudou em nada. Mas valeu à pena. O banho é muito bom, a água bem forte. É praticamente impossível ficar muito tempo debaixo, mesmo fora do fluxo principal.

Depois dessa, voltamos para a primeira cachoeira. Ficamos lá por pouco tempo, só o suficiente para tirar algumas fotos.

Iniciamos o nosso retorno por volta das cinco e meia e, às sete, já estávamos de volta à sede do parque.

A primeira coisa que notamos foi que a nossa roupa não estava mais no varal. Estava empilhada no tanque e cheia de lama. Elas devem ter caído com a chuva e alguém recolheu para nós. Havia também um pequeno laguinho dentro da barraca e árvores caídas por toda a área. Lá no meio da mata, não pareceu que a chuva havia sido tão forte.

Limpamos e lavamos as nossas coisas, tomamos banho (todos nós usamos a toalha da Tati que – esperta! - havia deixado-a dentro da barraca).

Preparamos o jantar com dois fogareiros: o Yanes velho de guerra e um fogareiro da ração R-2 que eu havia guardado de algum exercício na AMAN. Segundo o Piloto, parecia coisa de chinês, ficar soprando para fazer um foguinho miserável e torcer para ele não apagar.
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Continua em: A Caverna da Água Suja

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