Vou aproveitar meu aniversário e contar uma história que já contei pelo menos umas mil vezes e pela qual sou conhecido até hoje.
Tudo aconteceu na manhã de três de maio de mil novecentos e noventa e quatro. Mas vou explicar do começo.
Nas provas de natação do terceiro e quarto anos da Academia Militar das Agulhas Negras
, há o salto da plataforma. Funciona da seguinte maneira: a prova em si vale nove pontos. Mas para realizar a prova, é necessário realizar o salto: ou salta ou tira zero. Não é um salto ornamental ou acrobático; temos simplesmente que ter a coragem de se jogar lá de cima. Com salto de cinco metros de altura, você tem o direito de fazer a prova, sem ganhar ponto nenhum. Saltando dos sete metros e meio, ganha meio ponto. E saltando dos dez metros ganha um ponto.
Podemos dividir o pessoal em três grandes grupos. O primeiro é o dos que saltam sem medo, seja por conhecer a técnica de salto, seja por demência ou por qualquer outro motivo. O segundo é daqueles que não saltam de jeito nenhum e fazem os tenentes instrutores gastarem toda a sua psicologia para convencê-los. O terceiro é o dos “normais”: os que têm medo, mas saltam. Esse terceiro grupo é bem diverso, variando desde os que quase se encaixam no primeiro grupo até os que estão quase no segundo. Esses que estão quase no segundo são os que nos proporcionam os momentos de diversão na piscina: caem gritando, batendo asas, fazendo as mais estranhas performances enquanto despencam rumo à água.
Eu era um desses que me encaixava quase no segundo, mas saltava sem dar grandes espetáculos. Morria de medo mas, como não era o melhor dos nadadores, me obrigava a saltar do topo da plataforma para ganhar o ponto.
A partir do segundo ano da Academia, todos os dias em que há natação, há também o salto da plataforma.
Não foi diferente nesse dia já citado. Eu sempre ficava entre os últimos da fila, talvez esperando que algo maravilhoso ocorresse. A plataforma poderia desmoronar ou o mundo acabar e eu não teria que saltar!
A minha vez foi chegando e vi que, novamente, não teria escapatória. O tenente que estava no alto da plataforma era um precursor pára-quedista e fazia todo um teatro, como se estivéssemos saltando de uma aeronave.
Já no alto dá plataforma, apenas dois na minha frente, dava para sentir o coração saltando, as pernas tremendo, a piscina parecendo tão longe lá embaixo. O primeiro saltou.
Está chegando a minha hora. Tudo bem. O da frente vai saltar, vou à frente, olho para baixo, espero ele sair da água e salto. Um segundo e meio depois, eu bato na água. Não vou cair alinhado, vai doer, mas não muito. É sempre assim. Já fiz isso dezenas de vezes. Vamos lá, não é tão ruim.
Mas o meu colega da frente empacou. O tenente botou ele de lado e gritou: “O próximo! Levantar! Enganchar! Verificar equipamento! Pronto?” Eu estava pronto antes do outro não saltar. Porém agora não estava mais. O fato de o colega da frente não ter saltado me lembrou como esse negócio de ficar se jogando de lugares altos não é saudável.
Mas saltei assim mesmo. Fechei os olhos e…
… entrei a piscina retinho. Sem dor! Ainda debaixo d’água, eu comemorava. Acabou o mistério, aprendi a saltar! Não sei porque tem gente que tem medo disso. É uma coisa tão simples, tão fácil. Tão legal!
Pus a cabeça para fora e o capitão, com a prancheta na mão, me chamou:
“Piffer! Você caiu muito devagar; salte de novo!”
Caí devagar? Como é isso? Mas tudo bem, agora eu sei saltar; posso ficar o dia todo saltando, não tenho mais medo.
Até eu sair da piscina, dar a volta e subir toda a escada, todos já haviam saltado ou descido para a plataforma de cinco metros, para a sessão de psicologia com os tenentes.
Apenas um instrutor permanecia nos dez metros, me aguardando. Mal minha cabeça apareceu no alto da escada, ele disse: “Vai, Piffer. Saí correndo daí!”. Tomei impulso e parti, com minha recém-adquirida e destrambelhada auto-confiança.
Quando me vi no ar, percebi que o buraco era mais embaixo. Dez metros abaixo, para ser preciso. Percebi que eu continuava com o pavor de sempre. Fechei os olhos e esperei a água chegar.
Mas a água não chegava. O tempo passava, os pensamentos passando pela minha cabeça e nada da água chegar.
Onde está a água? Estou voando? Não é possível, eu não vôo… Que coisa estranha… Será que devo abrir os olhos para ver o que aconteceu? Não sei… Vou abrir.
Abro e vejo a água a um centímetro do meu nariz. Caí perfeitamente na horizontal, não afundei um palmo sequer. Acho que seria a mesma coisa se eu tivesse saltado para o concreto da borda da piscina. Acordei com uma bóia acertando a minha cabeça e um monte de gente pulando n’água e gritando: “O Piffer morreu! O Piffer morreu!”
Nesse dia eu descobri que a blusa de combate tem sete botões (todos eles sumiram). A minha calça rasgou de fora a fora, ficando como se fosse uma calça de odalisca, uns trapos seguros apenas pelo cinto.
Sem contar o uniforme, um sangramento no nariz e nos lábios e a barriga e as pernas vermelhas, nada de grave aconteceu. Não fiquei muito pior do que já era antes.