e-Lidiofin

28 August 2005

As abelhas

Filed under: Diversos, Militar

O causo ocorreu no início de setembro de 1994.

Eu ia contar toda a história da nossa Operação Lagoa Azul, mas vi que não valeria a pena. Ela não tem nada de diferente das outras operações, não fosse por alguns detalhes. O primeiro deles é que foi o principal manda-brasa do ano. Manda-brasa é um tipo de operação inopinada, que não ficamos sabendo com antecedência. O segundo é que os objetivos da missão eram em Angra dos Reis, bem longe da Academia. Para chegar lá, fomos até Bananal/SP em viaturas e, a partir dali, seguimos a pé, pela conhecida Trilha do Ouro, até Angra.

Foram vinte e um quilômetros de subida. O término da subida foi na Fazenda Conceição, no topo da Serra da Bocaina, onde passamos a noite.

A história que vou contar deu-se no dia seguinte.

A descida da serra é um pouco mais curta que a subida; devem ser uns quinze quilômetros. Desceu conosco um cachorro da fazenda. Claro que, na lógica canina dele, aquilo era apenas mais um passeio. Um pouco longo, mas logo estaríamos voltando para a fazenda, levando-o de volta. Depois de cumprirmos as missões, ele nos viu embarcando nas viaturas e se deu conta do erro que havia cometido.

Como o dono da fazenda é um cara que sempre colabora com a gente e nos deixa usar as instalações dele – e auxiliado pela cara de triste do cachorro -, o comandante do curso decidiu que levaríamos o cachorro de volta.

Embarcamos o cachorro e, na falta de um lugar melhor, o amarramos com um cabo solteiro ao bipé da metralhadora MAG. As viaturas partiram e subimos a serra. Os outros pelotões voltaram para a Academia, enquanto o meu seguiu para Bananal.

A fazenda era longe, mesmo de caminhão. Passou um tempo, acabou o assunto da conversa e todo mundo começou a procurar uma posição para dormir.

A viatura parou. Era o motorista, que havia dito ao tenente que precisava satisfazer suas necessidades fisiológicas. Mal ele desembarcou, o tenente começou a espernear e se bater, como um louco.

“Xi!… O tenente endoidou!” - Como víamos tantas coisas bizarras todos os dias, esse foi o único comentário que aconteceu, não foi dada importância ao fato.

Poucos segundos depois, elas entraram na carroceria também. Dezenas de milhares de abelhas, que não estavam para brincadeira.

Começou o fudevu de caçarola. O pessoal que estava na frente sendo picado, gritando e querendo sair dali. O pessoal do fundo, onde as abelhas não haviam chegado ainda, falando para todos ficarem parados que elas não picariam. No meio de tudo isso, dois colegas e o cachorro, que estavam dormindo no piso, sendo pisoteados.

O tenente começou a gritar pelo motorista. O Rodgers pulou do caminhão e foi procurar o motorista também. Mal colocou os pés no chão, uma abelha entrou no seu capacete. Ele jogou o capacete longe e saiu correndo desesperado, levando consigo uma pequena parte do enxame.

Nisso, apareceu o motorista. Entrou no caminhão, deu a partida e arrancou, saindo dali o mais depressa possível. Tudo e todos que estavam na carroceria foram arremessados para o fundo, incluindo pessoas, armas, mochilas e o cachorro amarrado à metralhadora.

As abelhas da boléia começaram a picar o motorista também e ele freou bruscamente. Todos que tinham caído no fundo do caminhão e agora estavam se xingando (ou latindo) e xingando o motorista, voltaram rolando para a frente.

Assim, o caminhão saiu do meio do enxame; o tenente e o motorista desembarcaram.

Nessa momento, a situação era a seguinte: as poucas abelhas que restavam no caminhão estavam sendo sistematicamente eliminadas com porradas certeiras e odiosas de capacetes, marmitas e qualquer outro objeto que servisse para bater. Enquanto isso, o tenente, o Rodgers e o motorista realizavam, na estrada, a sua dança macabra para escapar do enxame.

O motorista sumiu no meio do mato e o Rodgers se livrou das abelhas.

Restou o tenente. Ele foi andando na direção do meu colega e dizendo: “Calma, Rodgers. Um ajuda o outro”. E o Rodgers fugindo dele: “Não senhor, tenente! O senhor está com mais!”

Nessa situação triste terminou o nosso principal manda-brasa do ano.

Algum tempo depois, chegamos à fazenda e deixamos o cachorro, um pouco picado, mas vivo. A filha do dono da fazenda era linda e rendeu assunto para o resto da viagem.

Eu acabei deitando debaixo do banco e só acordei na AMAN. Sem uma única picada.

1 Comment »

The URI to TrackBack this entry is: http://lidiofin.blogsome.com/2005/08/28/as-abelhas/trackback/

  1. Aí mané, vc tirou essa história da manga…
    lendo me lembrei de tudão…
    Vc se lembra no início qdo uma abelha pousou na cara do Kruchak e um outro cara falou: não bate nela q se ela morrer vem mais .
    e o Kruchak bateu na abelha e disse: caguei, ela tá em mim não em vc…
    valeu a lembrança… Abração,
    Rodgers

    Comment by Rodgers — 4 September 2005 @ 11:08

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>


Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Jay of onefinejay.com