Inferno no Saboião
Era outubro de 1994.
Diferente da maioria dos exercícios de Defensiva, o daquele ano estava sendo realizado na região da Fazenda Boa Esperança
. Normalmente, os exercícios eram realizados numa região bem a leste de Resende, onde hoje se instalaram diversas indústrias. Essa região mais a leste tinha elevações bem mais suaves, em várias linhas paralelas, exatamente como está desenhado no manual. Talvez, por estarmos fazendo um exercício de menor envergadura, com apenas uma companhia, a região da Boa Esperança foi escolhida. Divagar sobre isso, porém, não é a idéia dessa pequena crônica.
Havia um pelotão no Sabóia e outro pelotão reforçado no Saboião. Todos que já passaram pela Academia sabem do que estou falando, mas para aqueles que não tiveram essa oportunidade, o Sabóia é o morro que fica imediatamente em frente à casa da Fazenda Boa Esperança. É alta e íngreme. O Saboião, um pouco mais a oeste, é mais alto e mais íngreme que o Sabóia, como o próprio nome sugere (ambas as elevações também podem ser vistas no Google Earth). Era lá que estava meu pelotão.
Cavar a nossa toca com uma pá e uma picareta, ambas com um cabo de menos de três palmos, cansa, causa bolhas nas mãos, mas não é nada do outro mundo. Depois de cavar, dormir sentado, junto com outro companheiro, dentro de um buraco de dois fuzis de comprimento por dois capacetes de largura é desconfortável, mas não é nada que não possa ser contornado. Depois de cavar, construir uma cobertura, camuflar, limpar os campos de tiro, fazer diversas melhorias (um lugar para a mochila, escoadouros para água, diversos buracos “porta-trecos”, etc), o exercício cai num marasmo típico das operações defensivas, enquanto aguardamos o inimigo aparecer.
Mas tudo isso era comum. O pior de tudo, pior que em todos os outros exercícios de Defensiva que participei, era buscar água. A cisterna ficava na sede da Fazenda, a uns dois quilômetros dali. O problema não era a distância e sim ter que descer e depois subir o Saboião novamente. Como iam dois de cada vez e o Pelotão tinha trinta e seis homens, cada um com dois cantis, eram trinta e seis quilos de água para cada um carregar.
No início, quando estávamos cavando, a cada três ou quatro horas alguém chegava com a água. Depois, quando o trabalho ficou mais leve, passamos a encher os cantis apenas após as refeições. Estávamos comendo rações operacionais, que são desidratadas e gastam uma boa quantidade de água para ser preparadas.
No terceiro dia do exercício, no final da manhã, enquanto eu preparava o meu almoço, o comandante do pelotão me disse que era minha vez de buscar a água. Eu lembro que ventava bastante e, para cozinhar, tínhamos que limpar o mato ao redor do fogareiro. Mesmo assim, às vezes uma pequena fagulha saltava e tentava causar um princípio de fogo. Enquanto comia, ficava me imaginando subindo aquela encosta com quase quarenta quilos na mochila.
Mal o comandante me deu a boa nova, começaram a voar cantis de todo lado. Terminei de comer rapidamente, esvaziei a minha mochila e passei a guardar os cantis.
Meu companheiro de toca pediu para deixar o fogareiro aceso, pois ele iria fazer o almoço dele.
“Venha rápido, senão ele apaga. E cuidado para não botar fogo em tudo!”
Ele chegou, guardei minha marmita, apanhei a mochila cheia de cantis vazios e comecei a descer, triste, a elevação. Não tinha andado nem dez metros, ouvi um “Eita!”. Olhei para trás e vi meu companheiro apagando o fogo ao redor do fogareiro. Sem problemas, aconteceu diversas vezes comigo. Continuei descendo e comecei a ouvir uma gritaria atrás de mim. Voltei-me novamente e…
O fogo já ocupava uma frente de uns dez metros. Ainda pensei, por alguns segundos, se eu precisava voltar, se o pessoal não conseguiria controlar o fogo enquanto eu pegava a água. Minha dúvida não durou muito:
“P…, Piffer! Não está vendo!? Vem ajudar a apagar essa m…!”
Voltei correndo. O fogo já alcançava as tocas mais próximas. O vento estava empurrando o fogo para a contra-encosta, então a primeira providência foi trazer as nossas coisas e, principalmente, as armas coletivas para frente.
Não tínhamos muito material para apagar fogo: blusas, pedaços de lona e, na maioria dos casos, galhos quase desfolhados.
A luta foi inglória. O fogo continuou avançando pela contra-encosta, cada vez mais rápido. Em menos de uma hora, estava chegando às posições do pelotão reserva, a quatrocentos metros dali. Eram quase cinco da tarde quando ele se apagou por vontade própria. Queimou uma área de uns trezentos por seiscentos metros. Por sorte, ninguém se machucou. De prejuízos, tivemos alguns quilômetros de fios telefônicos destruídos (pelo menos metade das tocas tinha um telefone de campanha instalado).
No final da contas, saí no lucro. Fui buscar água numa situação bem mais tranqüila, sem o sol escaldante do meio-dia, e tive a toca só para mim à noite. Meu companheiro, tido como responsável pelo ocorrido, passou a noite toda ajudando a lançar novamente os fios.

Meu pelotão, com a área queimada ao fundo. Estou no centro, encapuzado e segurando uma pá. No primeiro plano, um colega mostra a marmita queimada, que deu início ao fogo. O causador de tudo não parece na foto.

Piffer!!! Fiquei muito curioso em saber quem era o seu companheiro… Mande a resposta no meu e-mail particular Abração…
Comment by edjan — 6 February 2006 @ 22:02
GOSTEI DA FOTO E DE TUDO QUE VC RELATA TER PASSADO UM ABRAÇO E FÉ
Comment by VAL PQD — 29 August 2006 @ 22:50