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10 January 2008

A Guerra do Paraguai

Filed under: Militar
Num fórum de defesa que participo, o Brigadeiro postou um dia desses um texto sobre a guerra do Paraguai. O texto foi escrito por um tal de Alex Castro, que não estou muito interessado em saber quem é. O problema é que o cidadão diz que é professor de ensino médio e ensina coisas que não são verdade. Não falo de posições políticas ou ideológicas, porque isso é de cada um. Mas não podemos deixar que a nossa opinião distorça os fatos.

O texto em questão pode ser lido aqui: Riachuelo: Dia D do Brasil

Abaixo vou colocar algumas citações (em itálico) do texto e comentários feitos pelo Marino, oficial de Marinha (que realmente estudou História Militar) e que, apesar de não serem meus, faço-os como se fossem. Também tomei a liberdade de editar alguns comentários mais jocosos sobre a pessoa do autor, pois não é do feitio deste blog.

Estudei História Militar por achar que eram nos momentos-limites, como guerras, que os povos mais se revelavam.

Deve ter estudado no manual do Biotônico Fontoura.

Dom Pedro II cagou e invadiu assim mesmo.

É assim que ele ensina?

Os aliados combatem os paraguaios em Corrientes e no Rio Grande do Sul, enquanto a Esquadra Imperial, moderna e numerosa, vai subindo o rio, em direção ao Paraguai.

[…]

navios de última geração, tanto encouraçados quanto adaptados para combate em rio; e, talvez o mais importante, muita experiência em guerra naval.

Mostra total desconhecimento de tudo.

A Esquadra brasileira era de grandes navios de madeira, aptos a lutar no mar, e não em um rio estreito. Navios sem manobrabilidade, grandes, não encouraçados. Os encouraçados chegaram somente muito depois, para a passagem de Humaitá.

Como pode uma esquadra em território inimigo, numa manhã ensolarada, ser surpreendida com as calças na mão? Só isso já era pra ter dado corte marcial pra todo mundo.

Alguém escreva para ele e diga que não haviam satélites de reconhecimento, VANT, ou coisa parecida.

Naturalmente, o brasileiro já é meio preguiçoso e negligente. Quando ele acha que tem uma enorme superioridade material e que está invandindo o país de um bando de índio ignorante, mais ainda.

A superioridade material era paraguaia, com maior nº de navios, aptos para navegação no rio.

Tinham pensado em tudo, menos em uma coisa: ninguém lembrou de trazer ganchos de abordagem.

A tática era capturar os navios brasileiros e não destruí-los? Como justificar esta afirmação?

Os navios paraguaios passaram várias vezes ao lado dos brasileiros e tudo o que podiam fazer era atirar com munição de pequeno calibre. Um ou outro soldado conseguia pular para dentro dos navios brasileiros, mas não fazia muito estrago.

Como este jegue escreve que estudou o assunto? A morte de Mariz e Barros, Marcílio Dias, e tantos defendendo os navios abordados?

Pega de surpresa, entre dois fogos, a esquadra brasileira manobrou mal. Em mais uma mostra de incompetência ou negligência, nos primeiros momentos de reação caótica, vários navios brasileiros simplesmente encalharam nos bancos de areia.

Encalharam por navegarem em área não hidrografada e com NAVIOS DE GRANDE CALADO, PRÓPRIOS PARA O MAR.

Ora, uma esquadra navegando em um rio inimigo tem que ter práticos que conheçam bem as águas.

É, esquecemos de contratar alguns paraguaios.

E quer coisa mais característica do que nossa maior batalha brasileira ter sido decidida na improvisação? O almirante no comando da esquadra, Barroso, português de nascimento mas, claramente, brasileiro de coração, viu que as coisas não iam nada bem e teve um estalo genial: ressuscitou, fora do nada, uma tática naval em desuso há quase 400 anos, que nem era mais ensinada ou estudada.

Na Batalha de Lissa, logo após, os autríacos fizeram o mesmo.

Circularam boatos de que ele se escondera no banheiro durante o grosso da ação e que a idéia do abalroamento e a condução do navio tinham ficado a cargo do prático.

Os argentinos falaram que a tática foi de um prático argentino. Barroso pediu corte marcial, para ele, onde a acusação pudesse ser apresentada e rebatida, o que foi feito, com provas e testemunhas. Hoje nenhum argentino escreve uma babaquice destas, somente brasileiros de baixo gabarito.

Vários fatores fizeram com que a guerra ainda durasse cinco anos: os aliados foram excessivamente tímidos enquanto os paraguaios, excessivamente bravos e Dom Pedro não abriu mão da cabeça de López enquanto López não abriu mão da Presidência.

Tímidos? Com Tuiuti?

Os problemas eram “as estradas”, os rios fechados pela “Sebastopol Sul A mericana”, Humaitá, e Curuzu, e Curupaiti, etc.

Os argentinos queriam atirar a Esquadra brasileira, ainda de madeira sobre estas fortificações, o que levou a Tamandaré e Caxias a recusarem receber qualquer órdem do “Comandante-em-Chefe” Mitre. Quando os encouraçados e monitores construídos no Brasil chegaram, Humaitá foi forçada, Assunção bombardeada, a marcha de flanco de Caxias, a Dezembrada, e o fim da guerra.

Somente os brasileiros menosprezam sua história, seus feitos, como esta besta fez.

Vamos estudar antes de escrever! E, principalmente, antes de ensinar.

O tópico sobre a Guerra do Paraguai no Fórum DB pode ser acessado aqui (tem que se cadastrar para ler).

7 Comments »

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  1. A Guerra do Paraguai

    Num fórum de defesa que participo alguém postou um dia desses um texto sobre a guerra do Paraguai. O texto foi escrito por um tal de Alex Castro. O problema é que o cidadão diz que é professor de ensino médio e ensina coisas que não são verdade.

    Trackback by Marcus via Rec6 — 10 January 2008 @ 21:06

  2. acho que o problema é só que vc leu o artigo defensivamente. ele comemora a batalha que, apesar dos erros e negligencias, foi uma grande vitoria brasileira, graças ao insight de Barroso. o seu amigo colocou um bando de palavras na minha boca. quando foi que eu disse que barroso nao ordenou o abalroamento? eu disse que circulou o boato…. quando foi que eu disse que não houve abordagem? falo no texto que tive antepassado que lutou por 12h de arma branca no conves de um dos navios. o fato de terem usado o abalroamento em Lissa, que eu estou cansado de saber, invalida o que falei antes, que barroso desencavou uma tecnica em desuso há 400 anos? ora, esse é o GRANDE merito e genialiadade do Barroso, que no meio do caos daquela batalha quase perdida, ela tenha conseguido puxar do chapeu uma tática que ninguem usava há quase meio milenio e virar a batalha! acho que o problema é que tanto vc quanto seu amigo leram o texto tao armados e defensivos que até quando elogio a genialidade e criatividade de barroso vcs acham que é crítica. leiam o texto de novo… o plano paraguaio de tomar, nao destruir, a esquadra brasileira está em TODAS as fontes paraguaias, nao há discordancias nesse ponto, assim como o fato de terem esquecido os ganchos. a grande diferenca eh que alguns acham que os ganchos foram esquecidos, outros acham que foi sabotagem. e sim, sim, sim, pode ler qualquer historia naval escrita por almirante, qualquer relato da epoca, ninguem passa a mao na cabeca da esquadra brasileira pelos erros em riachuelo. os caras foram terrivelmente negligentes sim. ninguem precisa de satelite, ainda mais em rio. travam-se batalhas em rios há milenios, um lugar notoriamente dificil de navegar.. vc tem que ter praticos locais bons e tem que espalhar atalaias rio acima, com sistemas de comunicacao por sons, luzes, ou até fumaca, para avisar caso o inimigo venha se aproximando. nao é nada dificil, ainda mais dado que o inimigo só pode vir de um lado, por uma faixa estreita que é o rio. almirantes “fluviais” já faziam isso milhares de anos antes de barroso nascer. e quanto ao resto, as questoes factuais, sim, discordo de todas. dizer que os paraguaios tinham a superioridade em riachuelo é quase piada. mas enfim, acho que vcs estao tao armados esperando criticas de todos os lados que VEEM criticas em tudo… relaxem. ah, e jegue é a mae.

    Comment by alex castro — 13 January 2008 @ 10:07

  3. Sr Alex
    Se sua intenção era comemorar a Batalha do Riachuelo, deveria ter escrito de maneira condizente, e não da maneira crítica, jocosa, ridícula que escreveu.
    Esta é a forma que ensina seus alunos? Com estes termos e palavreado?
    Não me admira que os alunos brasileiros sejam tão mal avaliados.
    Agora vamos tratar de conceitos que o Sr não deve conhecer, como Controle de Área Ribeirinha.
    Desde a Guerra do Paraguai o Exército Brasileiro e a Marinha do Brasil possuem o conceito nomeado acima, no qual para o controle efetivo de um rio, suas águas e suas margens devem estar de posse de ambas forças.
    Na situação descrita a Força Naval navegava por território ocupado, com Córdoba tomada pelos paraguaios. As colunas de Robles e Estigarribia estavam ativas e cumpriam a missão por elas recebidas.
    Colocar observadores rio acima seria uma missão sem retorno, pois os cerros estavam ocupados, o território acima ocupado e a marinha paraguaia ainda controlava os rios. Os meios de comunicação da época não dispunham de alcance superior a linha de visada, desta forma inúteis para avisarem com antecedência a aproximação inimiga.
    Mesmo assim a Força Naval brasileira não podia se omitir, como não o fez.
    A força naval paraguaia foi detectada ao amanhecer, combatida e destruída.
    A marinha paraguaia tinha superioridade sim, pois seus navios eram aptos para navegar e combater em rios, e não no mar, como a Esquadra brasileira com seus grandes navios. Não se esqueça das chatas artilhadas e dos reforços do exército paraguaio nas margens e nos morros. Então este FATO não é piada não.
    O abalroamento, além do exemplo de Lissa, também pode ser visto na Guerra Civil americana, na Guerra do Pacífico, entre Chile e Peru, entre outros exemplos.
    Quanto ao boato de que Barroso não teria conduzido a Batalha, estava no banheiro de acordo com seu texto, e de que teria sido o prático argentino que concebeu a tática do abalroamento, deveria ensinar a seus alunos que Barroso, vencedor da Batalha decisiva da guerra, solicitou uma Corte Marcial onde pudesse provar que foi ele o condutor de todas as ações, que nesta corte apresentou provas e testemunhas, e que tudo isto pode ser visto hoje no acervo da Marinha.
    Pobres crianças brasileiras, com professores que escrevem textos deste naipe.
    Se não quer ser chamado de jegue, e sua mãe de mula, por extensão, não se aventure em área desconhecida sem estudar, sem pesquisar, sem ir ao Serviço de Documentação da Marinha e ler os documentos e relatos originais da guerra, sem criticar sem nenhuma fundamentação, em um texto risível.

    Comment by Marino — 13 January 2008 @ 10:43

  4. Se com essas palavras ele ‘comemora uma vitória’, fico imaginando com quais lastimaria uma derrota…

    Pobres alunos Brasileiros…

    Comment by Túlio — 13 January 2008 @ 11:04

  5. filhinho, relaxa, depoe as armas… estudei e escrevi sobre historia naval por dez anos, sou formado, mestre, doutorando, e prof universitario… conheco muito o sdm, jah fiz muita pesquisa lá, já fui a muita conferencia e jah bati altos papos com almirante leoncio, comandante (hj almirante) max, já publiquei artigo de historia naval na revista maritima na epoca do almirante brigido, o almirante castro e silva da base de submarinos era meu tio-avo, tenho essa joça no sangue… a unica diferenca entre nos é que eu eu discordo de vc mas nao estou te chamando de burro, mula, jegue e afins… (perdao pela carteirada, mas quem desqualifica o outro, o força a mostrar suas qualificações)

    alias, ainda nao estou entendendo a do abalroamento. vc disse: “O abalroamento, além do exemplo de Lissa, também pode ser visto na Guerra Civil americana, na Guerra do Pacífico, entre Chile e Peru, entre outros exemplos.” hmm, e daí? isso quer dizer que o barroso não é genial? isso tira o merito da tática dele? onde vc quer chegar com isso? pq está falando isso? juro que nao entendi…

    Comment by alex castro — 13 January 2008 @ 11:10

  6. Tá filhinho, vamos baixar as armas.
    Se quer saber minhas qualificações, sou graduado em Eletrônica, pós-graduado em Telecomunicações e em Gestão Internacional pela COPPEAD UFRJ, dois Mestrados, um no Brasil e outro no exterior, e Doutorado.
    Não sou professor universitário pq não quero.
    Você pode discordar de mim o quanto queira, é um direito democrático seu, assim como discordo, mas deveria reconhecer, com toda a qualificação colocada, que:
    1) não se ensina crianças com termos como: Dom Pedro II cagou e invadiu assim mesmo;
    2) que a Esquadra nacional não era mais moderna, nem mais numerosa e que os encouraçados não haviam sido incorporados;
    3) que a esquadra paraguaia navegou a noite, pois conhecia seu ambiente operacional e dispunha de práticos paraguaios, que o território acima de onde fundeava a esquadra brasileira era ocupado pelas forças inimigas, e que qualquer observador seria morto em, como eu disse, uma missão sem retorno. Por estes motivos, por não se omitir, a esquadra foi “surpreendida com as calças na mão”, que é outra maneira de não se ensinar a crianças;
    4) que, desta maneira, seu comentário de que: ” naturalmente, o brasileiro já é meio preguiçoso e negligente. Quando ele acha que tem uma enorme superioridade material e que está invandindo o país de um bando de índio ignorante, mais ainda.”, está incorreto, é preconceituoso e busca difamar os brasileiros que lá lutaram e morreram;
    5) que a tática paraguaia era passar rio abaixo a esquadra brasileira, subir o rio, ficar a contrabordo dos navios brasileiros, e capturá-los ou destrui-los. Desta forma, seu comentário: “Os navios paraguaios passaram várias vezes ao lado dos brasileiros e tudo o que podiam fazer era atirar com munição de pequeno calibre. Um ou outro soldado conseguia pular para dentro dos navios brasileiros, mas não fazia muito estrago” está errado, os canhões navais eram os mesmos para todas as nações envolvidas, que não foi só um ou outro soldado que pulou a bordo dos navios brasileiros, que estes foram sim abordados, que houve luta renhida a bordo dos mesmos, que heróis do calibre de Greenhalgh, Marcílio Dias e outros morreram nas abordagens feitas;
    6)que a esquadra brasileira navegava por área não hidrografada, sem cartas náuticas, e que por este motivo navios encalhavam nos bancos, e não que: “Pega de surpresa, entre dois fogos, a esquadra brasileira manobrou mal. Em mais uma mostra de incompetência ou negligência, nos primeiros momentos de reação caótica, vários navios brasileiros simplesmente encalharam nos bancos de areia.”;
    7) que se vc, com suas qualificações, querendo homenagear Barroso e a tática do albaroamento, não o fez direito escrevendo: “E quer coisa mais característica do que nossa maior batalha brasileira ter sido decidida na improvisação? O almirante no comando da esquadra, Barroso, português de nascimento mas, claramente, brasileiro de coração, viu que as coisas não iam nada bem e teve um estalo genial: ressuscitou, fora do nada, uma tática naval em desuso há quase 400 anos, que nem era mais ensinada ou estudada.”;
    8) que tem toda liberdade literária de expor um boato, mas que deveria desmenti-lo, ou pelo menos colocar a versão do outro lado, e não somente: “Circularam boatos de que ele se escondera no banheiro durante o grosso da ação e que a idéia do abalroamento e a condução do navio tinham ficado a cargo do prático.”; e
    9) que a duração da guerra se deveu a existência das fortalezas fluviais paraguaias, concebidas e construídas por engenheiros europeus, com Humaitá conhecida na europa como a “Sebastopol paraguaia”, e que não por: ” Vários fatores fizeram com que a guerra ainda durasse cinco anos: os aliados foram excessivamente tímidos enquanto os paraguaios, excessivamente bravos”, e que várias nações mandaram navios de guerra observarem a ultrapassagem de ditas fortalezas.
    Também mantenho minha posição de que esta não é a maneira de se ensinar a alunos de nível médio.
    Tenha uma boa tarde.

    Comment by Marino — 13 January 2008 @ 12:20

  7. Opa, e aí
    Gostei muito do seu blog, te convido a visitar o meu fotolog.
    http://fotolog.com/topico_militar
    Obrigado

    Comment by Ian — 26 February 2008 @ 22:00

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